Barbara Bellomo revive a Sicília de 1906 em 'L’incartatrice di arance'
Em 'L’incartatrice di arance', Barbara Bellomo revive a Catania de 1906, celebrando o trabalho feminino e a memória dos laranjais sicilianos.
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Barbara Bellomo revive a Sicília de 1906 em 'L’incartatrice di arance'
Por Chiara Lombardi — Em L’incartatrice di arance, Barbara Bellomo retorna à sua terra natal para traçar, com delicadeza e precisão histórica, o retrato de uma Sicília em transição. Mais do que um romance, o livro age como um espelho do nosso tempo: é um roteiro oculto que revela como o trabalho e a solidariedade feminina podem reformular a paisagem social.
A narrativa se concentra na Catania de 1906, cidade viva de mercados, do porto e de ofícios que exalam cheiro de peixe e de mar. Nesse cenário de contrastes — pobreza e iniciativa comercial, vestígios da modernidade industrial e a persistência das tradições — nasce a figura de Rosetta, uma adolescente forjada entre os bancos da peixaria, onde a dureza do cotidiano convive com uma vitalidade sempre à beira do inventivo.
Bellomo evita o artifício do choque fácil e prefere construir uma fábula de amadurecimento e recuperação: o encontro de Rosetta com Concetta Campione, proprietária de uma tipografia que emprega exclusivamente mulheres, abre uma fresta de futuro. Entre papéis, cores e máquinas de imprimir, a protagonista descobre um ofício e ensaia uma nova ideia de si mesma — um reframe da realidade que sugere caminhos inesperados para a mobilidade social.
O motivo da laranja, incartada manualmente, funciona como símbolo concreto de identidade regional e como metáfora de visão: cada fruto envolvendo uma história, cada invólucro, uma memória preservada. A prática de embalar as laranjas individualmente, evocada no romance, transforma um gesto artesanal em signo de resistência cultural e economia local.
Um dos méritos mais evidentes do livro é a tensão fecunda entre documental e inventivo. A personagem de Concetta Campione inspira-se em uma figura histórica real — mulher que, entre o final do século XIX e meados do XX, ajudou numerosas jovens e, junto ao marido, dirigiu uma tipografia em Catania. Nesse entrelaçar do vero e do verosímile, Bellomo reconstrói memórias esquecidas e devolve um protagonismo feminino há muito mantido à margem.
O romance confirma a coerência do percurso autoral de Barbara Bellomo. Formada em Letras, com doutorado em História Antiga e experiência como pesquisadora na Universidade de Catania, Bellomo hoje leciona italiano em um liceu da cidade. Sua obra narrativa já consolidava um vínculo estreito com a história e os lugares da Sicília: entre os títulos anteriores estão La ladra di ricordi (2016), Il terzo relitto (2017), Il peso dell’oro (2018), Il libro dei sette sigilli (2020) e La casa del carrubo (2022), publicados pela Salani; em 2024, com a Garzanti, veio La biblioteca dei fisici scomparsi.
Em suas páginas, Bellomo entrelaça pesquisa e imaginação, deixando que a história das mulheres e dos ofícios se revele como um cinema lento, quase documental: cenas que iluminam a transformação social como se fossem quadros de uma antiga fita restaurada. O leitor sai com a sensação de ter assistido a um filme sobre a memória coletiva — e, ao mesmo tempo, com o desejo de olhar mais atentamente para os pequenos gestos que moldam a modernidade.
L’incartatrice di arance não é apenas um romance histórico; é um convite a enxergar o trabalho feminino como matriz de inovação social e cultural, e a redescobrir, nos gestos cotidianos, o roteiro oculto que faz a história avançar.