Bienal de Veneza: Anish Kapoor conquista o público com ilusões e vertigens
Anish Kapoor na Bienal de Veneza: instalações que dobram a percepção entre ilusões, espelhos e vertigens. Uma análise cultural e sensorial.
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Bienal de Veneza: Anish Kapoor conquista o público com ilusões e vertigens
Bienal de Veneza: Anish Kapoor conquista o público entre ilusão e vertigem
Por Chiara Lombardi
Na Bienal de Veneza, o percurso de Anish Kapoor se impõe como um convite a olhar para dentro do espaço e para dentro de nós mesmos: esculturas que dobram a percepção, superfícies que engolem reflexos e cavidades que são como buracos negros de significado. A mostra revela um artista que, como um diretor que monta um plano-sequência, sabe manipular luz, matéria e silêncio para compor cenas que evocam tanto a memória coletiva quanto a inquietação individual.
Nascido em Mumbai em 1954, de pai indiano e mãe judia iraquiana, Anish Kapoor viveu uma juventude marcada pela geografia e pela técnica: dois anos em Israel estudando eletrônica, seguido pela mudança para a Inglaterra aos dezenove anos para estudar arte. Ali, apaixonou-se pelo gesto iconoclasta de Marcel Duchamp e por experimentos que reapresentavam a escultura como um problema filosófico e físico. Temas recorrentes em sua obra — o andrógino, a dicotomia feminino-masculino, a sexualidade e o rito — surgem como leitmotifs que atravessam suas instalações.
Desde as peças em pedra que apresentam cavidades profundas, como Void Field ou obras de 1989 onde o buraco central é preenchido por pigmento escuro, Kapoor trabalha a ilusão de profundidade e o sentimento de ausência. Essas intervenções criam, segundo o artista, uma sensação de vácuo que ressoa como um silêncio dramático no palco da obra.
Em outro registro, Kapoor explora superfícies refletivas que fragmentam ou anulam a imagem. Pensamos em Marsyas, a grande membrana de PVC vermelho exibida na Tate e depois em instituições como o MAXXI de Roma: uma tromba dupla que preenche o vazio arquitetônico e transforma o espaço em matéria ativa. Ou, no espaço público, no icônico Cloud Gate de Chicago (2003) — o famoso 'fagiolo' ou The Bean — uma escultura de aço inoxidável de 18 metros por 9 metros composta por 168 chapas soldadas, cuja superfície polida sem emendas cria um espelho deformante, quase alienígena.
Caminhar por baixo de algumas de suas peças é experimentar uma pequena vertigem: objetos que parecem prestar-se a uma aterrissagem iminente — como uma sineta metálica que sugere um sombrio ponto de sucção — provocam a sensação de estar à beira de uma queda para um “nada preto”. Essa tensão entre presença material e ilusão ótica funciona como um refrão que devolve à imagem o papel de espelho do nosso tempo.
Premiado historicamente — representante da Grã-Bretanha na XLIV Bienal de Veneza em 1990 e vencedor do Turner Prize em 1991 —, Kapoor transita entre o monumental e o íntimo, entre a engenharia e o rito. Suas escolhas materiais — mármore, granito, ardósia, arenito, PVC e aço — não são apenas técnicas, mas modos de escrever uma semiótica da forma: cada superfície carrega uma promessa de revelação ou de oclusão.
O que faz a obra de Anish Kapoor relevante hoje, especialmente no contexto da Bienal, não é apenas o efeito visual, mas o modo como suas peças atuam como dispositivos de reframe da realidade: nos convidam a parar, a questionar o eixo entre imagem e corpo, memória e presente. Em tempos saturados por superfícies que simulam profundidade — telas, feeds, espelhos digitais —, a escultura de Kapoor lembra que o verdadeiro choque não é necessariamente tecnológico, mas existencial. É como se cada obra fosse um pequeno roteiro oculto, uma cena que nos obriga a reconhecer a nossa posição no cenário de transformação.
Ver Kapoor em Veneza é, portanto, experimentar o entre-lugar entre arte e sensação, entre a vertigem e o entendimento. É caminhar por uma galeria como quem caminha por uma sala de cinema: atento ao frame, à luz, à respiração coletiva do público. E sair com a sensação de que a arte contemporânea ainda sabe nos surpreender — e nos mostrar o porquê dessa surpresa.