Biennale 2026: Buttafuoco abre espaço a dissidentes e reabre padiglione russo em Veneza
Buttafuoco anuncia dois projetos na Biennale de Veneza: espaço a dissidentes e ciclo sobre Pavel Florenskij; reabertura do padiglione russo gera controvérsia.
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Biennale 2026: Buttafuoco abre espaço a dissidentes e reabre padiglione russo em Veneza
Por Chiara Lombardi — Em um gesto que lembra o roteiro ambíguo de um filme político, a Biennale de Veneza volta a ocupar o centro do debate público. O presidente Pietrangelo Buttafuoco anunciou que haverá em Venezia dois verdadeiros «cantieri» dedicados à dissidência: um espaço para vozes incómodas vindas de várias partes do mundo e um ciclo de cinco sessões consagrado a Pavel Florenskij.
Buttafuoco, em um texto publicado no diário Il Foglio, explicou que a Fundação Biennale decidiu reabrir o padiglione russo para a 61ª Esposizione Internazionale d’Arte (9 de maio a 22 de novembro de 2026), encerrado nos últimos quatro anos por causa da invasão da Ucrânia. A medida suscitou críticas internacionais e um debate que ultrapassa o simples conflito diplomático: é, nas palavras que uso aqui, um espelho do nosso tempo onde arte e política se reflectem e se questionam.
O primeiro cantiere anunciado será uma espécie de tribuna para “cinco protagonistas de hoje” que são malvistos por seus próprios governos — oriundos, segundo Buttafuoco, dos Estados Unidos, Israel, China, Rússia e até da União Europeia. Por motivos óbvios, os nomes não foram revelados no anúncio inicial. A ideia é alimentar o que ele chama de memória da Biennale del Dissenso, celebrando vozes que desafiam autoritarismos e que transformam a arte em testemunho político.
O segundo projeto, intitulado "La colonna e il fondamento di Verità", será composto por cinco noites dedicadas a Pavel Florenskij, a figura russa descrita por Buttafuoco como “martire entre os mártires”, filósofo, cientista e testemunha de uma verdade que lhe custou a vida em 1937, executado em Leningrado. O responsável também prometeu a participação de filósofos, teólogos e instituições como o Patriarcato da Sereníssima, além de um público veneciano que ele prevê entusiasmado e numeroso.
Buttafuoco evocou ainda exemplos recentes: no último Festival de Cinema de Veneza, o cineasta Aleksandr Sokurov marcou presença e o filme politicamente esperado foi Il Mago del Cremlino, reforçando a noção de que, mesmo sob regimens fechados, a arte dissidente consegue escapar e provocar.
A decisão, porém, não passou incólume. Vieram protestos da Ucrânia, de órgãos da União Europeia e de 26 eurodeputados; mais de 7.000 intelectuais assinaram uma carta aberta contra a reabertura do pavilhão russo. O ministro da Cultura, Alessandro Giuli, criticou duramente a escolha, afirmando que a participação russa ocorreu “apesar do posicionamento contrário” do governo italiano e destacando a necessidade de proteger o património ucraniano afetado pela ofensiva russa. Em mensagem em vídeo, Giuli recusou-se a participar do lançamento do Padiglione Italia e apontou a contradição das "autocracias" onde a arte só é livre quando dissidente.
Buttafuoco, por sua vez, defendeu com vigor a autonomia da Biennale: “Todos os países em guerra estarão aqui. Eu abro a todos, não fecho a ninguém”, disse, reiterando que a instituição não deve transformar-se em instrumento de censura política. Circulou também a possibilidade, citada por autoridades, de que o Governo possa declarar «persona non grata» profissionais que ingressem com passaporte russo para trabalhar na organização — uma medida que apontaria para outra camada do embate entre diplomacia e cultura.
O episódio transforma a Biennale num cenário de transformação — não apenas uma exposição de obras, mas um palco onde se encenam as tensões contemporâneas. Como observadora cultural, enxergo nesta decisão uma aposta arriscada: dar voz aos dissidentes e reabrir um pavilhão controverso é ao mesmo tempo um reframe da realidade e um convite a pensar por que e para que se preserva um espaço público de arte. Em Veneza, a arte volta a funcionar como a semiótica do viral — expõe, provoca e obriga a perguntar: qual é hoje o papel das instituições culturais diante dos conflitos do mundo?


