Biennale di Venezia 2026: 5 pavilhões (mais um) imperdíveis entre polêmica e poesia viva

Guia crítico da Biennale Arte 2026: 5 pavilhões (mais um) imperdíveis entre polêmica, performances e obras que reescrevem o contemporâneo.

Biennale di Venezia 2026: 5 pavilhões (mais um) imperdíveis entre polêmica e poesia viva

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Biennale di Venezia 2026: 5 pavilhões (mais um) imperdíveis entre polêmica e poesia viva

Por Chiara Lombardi — A Biennale voltou a se apresentar como um espelho do nosso tempo: na 61ª Exposição, o verniz das celebrações se mistura a tensões políticas e a propostas estéticas que pedem leitura. Esta edição, apelidada por muitos de "Biennale da discordia", chegou carregada de debates — sobretudo pela decisão de incluir artistas russos — e por um confronto público entre o presidente da Fundação, Pietrangelo Buttafuoco, e o ministro da Cultura, Alessandro Giuli. Mas, para além das manchetes, há obras que funcionam como roteiros ocultos da sociedade: aqui estão cinco pavilhões (mais um) que merecem ser vistos — e sentidos.

1) O pavilhão em disputa — performance e silêncio programado
O pavilhão que polarizou debates permanece, simbolicamente, entre o aberto e o oculto. Decidiu-se que ele ficará acessível apenas durante os dias de preview para imprensa e profissionais, fechando as portas ao público entre 9 de maio e 22 de novembro. Ao espectador regular, restarão grandes telas que exibem gravações da performance-título The Tree is Routed in the Sky. Nas ações realizadas nas vésperas da abertura, a plateia encontrou um conjunto de performances, música, cantos e instalações vegetais que ilustram uma frase-lâmina nas legendas: "i fiori non profumano più". A peça se insinua como uma alegoria do nosso distanciamento da natureza e da lógica de mercado que transporta flores de Equador ou Quênia, as sujeita a tratamentos e seleções para prolongar sua vida, e nos dá em troca um cheiro domesticado — não raro, uma ausência.

2) A escultura vivente e sonora — ritmo, fragilidade e palavras de barro
Entre os pavilhões, uma obra permanece na memória como uma sequência de cenas de um filme: tambores estrondosos, ritmos tribais, vozes que se entrelaçam, performers que dançam e trocam placas de terracota. As palavras inscritas — "if", "will", "you" — aparecem como intertítulos de um roteiro fragmentado: fragmentos de promessa, condição e apelo. O contraste entre a força sonora e a fragilidade do barro reforça a reflexão sobre os ritmos frenéticos da vida contemporânea e a resistência tênue que sustenta a existência cotidiana. É uma experiência sinestésica que funciona como um refrão cultural.

3) Con te con tutto — Chiara Camoni e a re-semantização do descartado
O projeto expositivo "Con te con tutto", assinado por Chiara Camoni e curado por Cecilia Canziani, é uma convocação à presença e à contemplação. A proposta é uma "chiamata a raduno": reunir, reconhecer e transformar. No interior, obras inéditas e trabalhos já existentes dialogam segundo uma prática combinatória de reaproveitamento e re-significação. Plásticos reciclados, restos de processos industriais e objetos encontrados ganham nova voz — ou melhor, nova função narrativa — e convidam o espectador a ler o paesaggio contemporâneo através dos descartes. Há aqui uma ética estética que lembra a montagem cinematográfica: cortes, sobreposições e colagens que reconfiguram sentido.

4) Ei Arakawa-Nash — a selva da parentalidade
No mesmo circuito, o grupo de Ei Arakawa-Nash, sob a curadoria de Lisa Horikawa e Mizuki Takahashi, ergue uma selva composta por fraldas, mamadeiras, carrinhos e bonecas — um cenário doméstico transformado em floresta. A obra investiga o ato de ser pai e mãe e, por extensão, lança perguntas sobre o futuro da humanidade e das estruturas sociais que o sustentam. A instalação funciona como um dispositivo de memória coletiva: o aparente conforto das rotinas infantis se converte em paisagem simbólica, onde o cuidado, o medo e a esperança coexistem em camadas.

5) O 'mais um' — passear como método de leitura
Além dos destaques nominais, há um quinto espaço que se revela na experiência de caminhar pela Biennale: pavilhões menores, corredores do Arsenale, salas residuais que, como cenas secundárias de um filme, ampliam o campo semântico da mostra. Esses cantos oferecem contrapontos íntimos às grandes narrativas: pequenos trabalhos que atuam como refrões, memórias e acenos críticos. São lembretes de que o zeitgeist não está apenas nas estreias, mas também nos detalhes.

Em sua convergência, a edição 2026 confirma que a 61ª Exposição Internacional de Arte não é apenas vitrine: é um espelho — às vezes embaçado, às vezes cortante — do que projetamos e do que ainda evitamos ver. A questão não é somente quem está dentro ou fora, mas quais histórias escolhemos focalizar. Entre performances gravadas, esculturas sonoras, reaproveitamentos poéticos e selvas de fraldas, a Biennale nos convoca a ler o presente com olhos de arquivo e de cinema: enxergar os descompassos, escutar os ruídos e sentir o peso das ausências.