Biennale di Venezia sob pressão: UE pode congelar fundos se reabrir o pavilhão da Rússia
UE ameaça congelar fundos à Biennale de Veneza se reabrir o pavilhão da Rússia; Biennale nega violação de normas e tem 30 dias para responder.
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Biennale di Venezia sob pressão: UE pode congelar fundos se reabrir o pavilhão da Rússia
Por Chiara Lombardi — Em um episódio cujo contorno se lê como um roteiro de tensão diplomática, a Biennale di Venezia encontra-se no centro de um impasse entre arte, política e regime de sanções. No mesmo dia em que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky assinou o decreto que impõe sanções contra cinco representantes do pavilhão russo em montagem, a Comissão Europeia formalizou uma ação que pode resultar no congelamento ou na revogação de um financiamento europeu destinado à instituição veneziana.
A verba em questão é uma subvenção da ordem de dois milhões de euros destinada à promoção cinematográfica para o período 2025-2028. Em carta datada de 10 de abril de 2026, a Eacea — a Agência Executiva de Educação e Cultura da Comissão — assinalou que, ao permitir a reabertura do pavilhão da Rússia na 61ª Exposição Internacional de Arte, a Biennale poderia estar em desacordo com o regime sancionatório europeu. A agência comunicou que pretende suspender ou cancelar o aporte financeiro e concedeu 30 dias para que a instituição apresente controdeduções.
O tempo é curto: a 61ª Exposição será inaugurada em 9 de maio, com três dias de vernissage para a imprensa imediatamente antes — o período durante o qual a delegação russa planejava realizar performances artísticas. Nesse cenário, cada decisão institucional reverbera não só na agenda cultural, mas também na geopolítica simbólica do evento.
O ministro da Cultura italiano, Alessandro Giuli, posicionou-se contra a participação russa. Giuli boicotou a apresentação do Padiglione Italia no ministério e a inauguração do restaurado pavilhão central nos Giardini, viajou a Lviv em sinal de solidariedade à Ucrânia e reiterou apoio à ministra ucraniana da Cultura. Ao mesmo tempo, solicitou à Biennale documentação sobre relações com autoridades russas e reserva-se quanto à decisão final. A Comissão Europeia também aguarda parecer do Ministério dos Negócios Estrangeiros italiano sobre a compatibilidade entre a reabertura do pavilhão russo e o regime de sanções.
Em resposta formal, a direção da Biennale declarou que "toma nota das considerações contidas na carta" e que apresentará suas justificativas nos prazos previstos, afirmando estar certa de não ter violado normas e de ter atuado em conformidade com a convenção em vigor com a Eacea. A instituição reiterou ter agido em estrita observância das leis nacionais e internacionais e dentro dos limites de suas competências e finalidades.
Como analista cultural, vejo esse episódio como um espelho do nosso tempo: não se trata apenas de um conflito administrativo, mas de um problema semiótico sobre quem pode falar em espaços simbólicos globais. A arte contemporânea muitas vezes funciona como uma sala escura onde projetamos narrativas — e agora vemos o público, as instituições e os Estados disputando o controle do projetor.
Há camadas nesse imbróglio. Por um lado, a defesa de princípios legais e a necessária aplicação de sanções; por outro, a autonomia das instituições culturais e a discussão sobre se fechar portas a artistas ou a um pavilhão equivale a censura ou a coerência política. A Biennale sustenta que cumpriu a convenção com a agência europeia; Bruxelas, por sua vez, exige garantias de compatibilidade com as sanções que visam isolar a máquina estatal russa.
À medida que se aproxima a data de abertura, a narrativa continuará a se desdobrar entre cartas formais, pareceres ministeriais e, possivelmente, decisões financeiras drásticas. A cena veneziana, sempre palco de grandes debates estéticos, transforma-se agora num palimpsesto onde se sobrepõem diplomacia, financiamento e a implacável exigência de coerência política. Resta ver se a Biennale conseguirá apresentar um argumento jurídico e ético capaz de preservar o fundo de dois milhões de euros — ou se a agência europeia transformará a ameaça em corte definitivo, mudando o script desta edição.