Blanco e o álbum Ma': entre drogas, raiva e a busca por renascimento
Blanco em Ma': disco íntimo sobre drogas, raiva, relações tóxicas e esperança; confissão sonora e busca por renascimento.
RESUMO ✦
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Blanco e o álbum Ma': entre drogas, raiva e a busca por renascimento
Por Chiara Lombardi — O novo álbum de Blanco, Ma', que chega às plataformas nesta sexta-feira, é menos um espetáculo e mais um espelho íntimo: imagens de drogas, polícia, dor, raiva, relações tóxicas, inferno e morte não aparecem como sinopse de uma vida de rua, mas como um inventário de feridas pessoais e de um percurso de autoconsciência. É a crônica sonora de alguém que saiu do quarto durante a pandemia e, ao explodir no imaginário nacional, explodiu também por dentro.
No centro do disco está a tensão entre a confissão e a esperança. Blanco não se entrega ao exibicionismo autodestrutivo: ele descreve, de forma cirúrgica, os seus “momentos complicados” e repete que, mesmo nos episódios mais sombrios, há uma perspectiva de renascimento. “Eu sto uscendo da quel tunnel, io sto facendo pulizia”, afirma — a frase funciona como um refrão existencial para quem acompanha sua trajetória desde Blu celeste até os picos de Innamorato e as quedas narradas em Ma'.
Em faixas como a que empresta o título ao álbum, o cantor canta “Io non mi voglio bene. Questa vita fa schifo” com uma atmosfera dramática que mistura eletrônica sombria e vocais quase confessionais. É preciso lembrar: essas linhas não buscam glamourizar a dor; procuram iluminá-la. Blanco conta que, durante a gravação, saía para discutir com a mãe e voltava para registrar essa ferida na canção — uma escolha que transforma o estúdio em set de filmagem emocional, onde a câmera é o microfone.
A presença de drogas no repertório é tratada como desvio, não como mito: em “Fuori dai denti” elas aparecem como distrações, atalhos que ele não deseja revisitar. Hoje, diz estar bem — feliz, ainda que consciente da fragilidade desse estado. A narrativa do álbum percorre três anos de altos e baixos: há quem tenha visto Blanco suspenso em Blu celeste, nas alturas com Innamorato; aqui ele se mostra nas dobras da queda, momentaneamente mais vulnerável, mas também mais lúcido. E insiste: em meio ao abismo, “Dio mi ha teso la mano”. A fé, para ele, é menos doutrina e mais sensação de algo maior e inexplicável no cenário da existência.
Musicalmente, Ma' dialoga com referências rock e pop. Há colaborações que soam como encontros de roteiro: Elisa aporta sua textura vocal, enquanto em “Peggio del diavolo” as guitarras lembram o universo cru de Gianluca Grignani, figura que Blanco elogia pela autenticidade — “quando o encontra, ele já te mostra 90% do que é”, diz, preferindo a franqueza à cena repleta de falsos semblantes.
“Maledetta rabbia” traz autotune em ecos anos 80 e uma declaração quase performática: “Vivo solo da rockstar”. Mas a sua concepção de rock é conceitual — uma disciplina, uma vontade de transformação, não apenas hedonismo. É o reframe do arquétipo: o rock como vanguarda ética, não só comportamento.
Sobre episódios públicos, como o incidente das rosas no Sanremo 2023, Blanco o relativiza: havia um problema técnico e uma reação imediata. Essa imperfeição humana, essa câmera que não corta, é parte do que torna Ma' verossímil. O álbum, no fim, se posiciona como roteiro de sobrevivência — uma obra que aposta na sinceridade como cura e na arte como espelho do nosso tempo. Se o entretenimento é palco, aqui ele também é terapia; se é espelho, reflete uma juventude que negocia fama, culpa e a busca por redenção.