Bradley Cooper explora o poder da criatividade sobre as relações em È l'ultima battuta? (nota 7½)
Bradley Cooper dirige È l'ultima battuta?, com Will Arnett: a criatividade do stand‑up como espelho das crises conjugais. Nota 7½.
RESUMO ✦
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Bradley Cooper explora o poder da criatividade sobre as relações em È l'ultima battuta? (nota 7½)
Por Chiara Lombardi — No novo filme de Bradley Cooper, È l'ultima battuta? (apresentado em anteprima no Bif&st de Bari), a crise conjugal é vista sob o espelho inesperado do palco de stand‑up. O protagonista, Alex Novak, interpretado pelo ator e comediante canadense Will Arnett, encontra no microfone um roteiro íntimo de autoconhecimento e sobrevivência.
Alex não procurava uma terapia formal. Casado, em processo de separação e afogado por uma melancolia que se reflete na rotina, ele acaba por descobrir que o porão do clube The Olive Tree, em Nova York, oferece mais do que uma noite de diversão: ali, aspirantes a comediantes testam limites, contam feridas e, sem querer, se curam. A regra prática é simples e quase cinematográfica — quem sobe no palco numa das noites open mic não precisa pagar a bebida de 15 dólares. Alex aceita o microfone por economia, mas sai dali com algo bem mais caro: a capacidade de se olhar inteiro.
A história do filme tem origem numa anedota verdadeira — um representante farmacêutico deprimido que, em Manchester (New Hampshire), sobe por acaso num palco e começa a narrar as turbulências de sua vida familiar. A partir desse núcleo real, Cooper escreve uma comédia que faz pensar sobre a função da arte dentro da vida privada: a expressão criativa como espelho do nosso tempo, como um reframe que reordena memórias e desvenda sentimentos.
É impossível não traçar uma linha entre este longa e as duas primeiras direções de Bradley Cooper — A Star Is Born (È nata una stella) e Maestro. Ainda que assumam tons distintos — o melodrama romântico do primeiro, o biográfico do segundo e a comédia presente no terceiro — todos confrontam a mesma questão: qual é o papel terapêutico (ou, por vezes, patológico) da criatividade? Como o ato de performar diante de uma plateia pode acionar forças transformadoras dentro de uma relação?
No filme, após a primeira experiência no palco, Alex volta repetidas vezes não apenas pelos aplausos ou pelas risadas, mas por uma espécie de "terapia selvaggia" que o ajuda a se entender. O palco funciona como um laboratório emocional — um lugar onde a linguagem cômica se mistura com confessionos íntimos, desencadeando tanto cura quanto conflito.
Curioso é também pensar no percurso de Cooper: ator consolidado com cerca de setenta filmes no currículo, incluindo a trilogia The Hangover (Uma Noite Fora de Série), e trabalhos elogiados em O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook), American Hustle, American Sniper e Licorice Pizza. Por que voltar‑se para a direção? Talvez para investigar, num novo plano de câmera, os efeitos íntimos da criação artística — como se o diretor, agora com a câmera, repetisse o gesto do comediante no microfone: expor e compreender.
Este filme de Cooper se oferece, portanto, como um espelho do nosso tempo: a comédia não é apenas fuga, é ferramenta. O riso em cena acende perguntas sobre casamento, identidade e o roteiro oculto que cada um carrega. È l'ultima battuta? não se contenta em ser apenas engraçado; deseja sondar por que rimos e o que isso revela sobre os laços que nos unem e nos separam.
Com uma performance discreta e efetiva de Will Arnett como Alex Novak e a presença de Laura Dern no papel da esposa, o filme equilibra humor e reflexão, oferecendo ao espectador mais do que entretenimento: uma pequena cartografia emocional, onde o palco vira mapa e a criatividade, bússola.
É cinema que dialoga com memórias e desejos — uma semiótica do viral aplicada ao íntimo. Cooper, como cineasta, reafirma seu interesse pelo efeito da arte sobre a vida privada, perpetuando um tema que parece ser o fio condutor de sua trajetória autoral.