Buttafuoco evoca Gabriele d'Annunzio e a força de Veneza na Bienal
Buttafuoco recupera o discurso de Gabriele d'Annunzio (1895) sobre a relação entre arte e vida ao inaugurar o renovado Pavilhão Central da Bienal.
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Buttafuoco evoca Gabriele d'Annunzio e a força de Veneza na Bienal
Por Chiara Lombardi — Durante a apresentação do renovado Padiglione Centrale nos Giardini, o presidente da Bienal de Veneza, Pietrangelo Buttafuoco, recuperou um gesto retórico e simbólico que remonta ao final do século XIX: o célebre discurso de Gabriele d'Annunzio pronunciado na clausura da primeira Exposição Internacional de Arte, em outubro de 1895.
Naquele momento histórico, o poeta notabilizou-se por saudar a iniciativa do então prefeito Riccardo Selvatico, que havia convidado artistas de vários países a reunirem-se em Veneza para entregar diante daquele «eterno focolare d'arte» a prova dos seus sonhos e dos seus esforços novos. Buttafuoco remeteu ao texto integral de d'Annunzio para sublinhar como certas formulações atravessam séculos e continuam a funcionar como um espelho do nosso tempo.
Ao evocar o apelo que convocava criadores a «vir reconhecer seus males sob o esplendor desta alma antiga e sempre nova», o presidente da Bienal não apenas celebrou uma memória institucional, mas também apontou a sobrevivência de um dilema que o próprio d'Annunzio diagnosticou: a fratura entre Arte e Vida. Era, e segue sendo, uma advertência sobre a condição do artista como figura isolada e suspensa entre aspirações e desilusões — um personagem do roteiro oculto da sociedade que procura reencontrar um princípio vital na própria obra.
Na linguagem de Buttafuoco, Veneza volta a funcionar como palcos e projeção: cidade que preserva um sentido de fecundidade ideal, capaz de convocar visitantes e criadores para testemunhar e tensionar os vínculos entre estética e existência. O gesto de «convidar com solenidade» artistas de todas as nações para se reunirem nos jardins da Bienal foi relembrado como prova de fé numa tradição que, apesar das crises culturais contemporâneas, insiste em acreditar no poder indestrutível da Beleza e na dignidade do espírito humano.
Como analista cultural, proponho que leamos esse eco histórico não apenas como nostalgia de um passado institucional, mas como um reframe da realidade: a chamada de d'Annunzio e a retomada de Buttafuoco nos convidam a pensar a Bienal como um catalisador para repensar hierarquias intelectuais, a transmissão das idealidades herdadas e a responsabilidade pública da arte. Em tempos de transformação social global, a pergunta que permanece é prática e filosófica ao mesmo tempo — que tipo de testemunhos, que sonhos e que esforços devemos demandar hoje aos criadores para que a arte volte a falar profundamente com a vida?
Veneza, com seus canais e palácios, continua a ser uma lente: um cenário de transformação onde se lê, nas superfícies brilhantes e nas fachadas gastas, o conflito entre tradição e contemporaneidade. A invocação de d'Annunzio, talhada em 1895, ressoa agora como um convite crítico para que a Bienal reafirme seu papel não como mera vitrine, mas como um laboratório público — um lugar onde a tensão entre Arte e Vida é visibilizada e tratada como matéria prima de uma renovação cultural.


