Cannes 2026: abertura marcada por homenagens, filme francês e debate sobre paridade
Cannes 2026 abre com homenagem a Peter Jackson, filme de Pierre Salvadori e debate sobre paridade: cobertura cultural e reflexões do festival.
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Cannes 2026: abertura marcada por homenagens, filme francês e debate sobre paridade
Esta noite, às 19h, abre a 79ª edição do Festival de Cannes, uma cerimônia que já aparece como espelho do nosso tempo: entre homenagens, estreias e discussões sobre representatividade, o evento promete oferecer mais do que tapete vermelho — oferece um roteiro oculto da cena cinematográfica contemporânea.
A primeira Palma de Ouro especial, a Palma d'oro alla carriera, será entregue a Peter Jackson, em reconhecimento à carreira que transformou a fantasia épica em fenômeno cultural. Na sequência, fora de competição, será exibido o filme francês La Vénus électrique, de Pierre Salvadori, uma comédia romântica burlesca ambientada na Paris de 1928 — um passeio pelo passado que fala ao presente.
Como já ocorreu no ano anterior, a cerimônia de abertura no Grand Théâtre Lumière será transmitida em centenas de salas de cinema por toda a França, reforçando a vocação do festival como palco público e coletiva experiência cinematográfica. A condução ficará por conta da atriz francesa emergente Eye Haïdara, já indicada ao César e aos prémios Lumière, que também participa da mostra Cannes Première com L'oggetto del delitto, de Agnès Jaoui.
La Vénus électrique, que abre oficialmente a mostra, traz no elenco Pio Marmaï, Anaïs Demoustier, Gilles Lellouche, Vimala Pons, Gustave Kervern e Madeleine Baudot. Salvadori descreve o filme como uma encarnação da sua confiança e amor pela arte: “Cannes celebra tudo aquilo que amo no cinema — a direção, a audácia, a liberdade e os cineastas”, afirma o diretor. É uma declaração que lembra como o festival funciona como amplificador de afectos e apostas artísticas, um pequeno grande laboratório de visões.
Outro momento aguardado já no primeiro dia é a presença de Guillermo del Toro, que retorna à Croisette para apresentar a versão restaurada em 4K de O Labirinto do Fauno, vinte anos após sua estreia no festival. O resgate técnico e simbólico de uma obra tão ligada à memória coletiva exemplifica o papel de Cannes como guardião e reinterpretador do patrimônio cinematográfico.
Nos bastidores, persiste o debate sobre a equidade de gênero na seleção oficial. Com cinco diretoras entre os 22 filmes do concurso principal, o diretor geral Thierry Frémaux defendeu a escolha do festival e rejeitou a ideia de quotas obrigatórias, assim como as acusações de "feminism washing" relacionadas à imagem promocional que remete a Thelma & Louise. Frémaux lembrou que a carta assinada em 2018 com o Collectif 50/50 não impõe obrigações de paridade na seleção, e afirmou que a política do festival privilegia a qualidade das obras. Ao mesmo tempo, disse que, diante de indiferença entre duas obras de igual valor, a preferência recairia sobre a diretora — um gesto simbólico em direção à correção histórica.
Segundo a organização, as mulheres representam cerca de 34% dos diretores selecionados nesta edição, um número que, apesar de insuficiente para muitos, sinaliza uma mudança lenta no cenário de transformação da indústria. Importante notar também que, nesta edição, não há filmes italianos na seleção oficial — um fato que não passa despercebido no circuito cultural italo-brasileiro que acompanha a Croisette.
Esta edição de Cannes convive com paradoxos: celebra o passado — por meio de restaurações e homenagens —, mas também é palco de contestações sobre o futuro ético do cinema. Se o festival é, como sempre, um espelho do período que vive, ele reflete ao mesmo tempo glórias cinematográficas e tensões de uma indústria em reconfiguração. O que veremos nestes dias na Croisette é menos um festival isolado e mais um mapa em evolução do que o cinema contemporâneo escolhe ser.