Cannes 2026: O dia de Almodóvar e Zvyagintsev — dois mestres em foco
Cannes 2026: Pedro Almodóvar estreia Amarga Navidad e Andrey Zvyagintsev retorna com Minotaur — dois dias decisivos na Croisette.
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Cannes 2026: O dia de Almodóvar e Zvyagintsev — dois mestres em foco
Chega hoje à Croisette o aguardado encontro com dois dos cineastas mais esperados desta 79ª edição do Festival de Cannes: o espanhol Pedro Almodóvar, com Amarga Navidad, e o russo dissidente Andrey Zvyagintsev, que retorna às telas após nove anos com Minotaur. Em um festival que sempre funciona como um espelho do nosso tempo, esses dois nomes oferecem roteiros que dialogam com a política íntima e coletiva de 2026.
Almodóvar, já consagrado na Croisette — onde foi premiado em 1999 pelo trabalho de direção por Tudo sobre minha mãe e em 2006 pelo roteiro de Volver — apresenta o que definiu como a sua obra mais pessoal: Amarga Navidad. O filme traça o alternar de duas narrativas sobre cineastas às voltas com uma mesma escrita — a de Elsa e a de Raul — ambas situadas em 2026. É talvez o gesto autoral de um diretor que escolhe confrontar memórias e desejos em cena, um reframe da realidade que convida o espectador a olhar não só para o que é contado, mas para o porquê do contar.
Andrey Zvyagintsev, por sua vez, regressa com o vigor irônico de quem observa as fracturas sociais. Vencedor em Cannes do Prêmio da Juria de Un Certain Regard por Elena (2011), do prêmio de roteiro por Leviathan (2014) e novamente laureado com o Prêmio da Juria por Loveless (2017), apresenta Minotaur, ambientado na Rússia de 2022. No centro do filme está Gleb, um executivo de carreira impecável que vê sua vida meticulosamente ordenada desabar — um choque existencial que o empurra para a violência. Zvyagintsev filma essa queda com a precisão de um cirurgião narrativo, revelando o roteiro oculto das tensões contemporâneas.
Paralelamente à competição principal, a programação reserva momentos de memória e descobertas. Ken Loach apresenta, na seção Cinema na Praia, um de seus clássicos: Terra e liberdade (1995), relembrando o cinema como testemunho histórico. Já Andy Garcia, em seu segundo filme na direção, estreia Diamond, um noir que recolhe um elenco multiplicado — entre eles Vicky Krieps, Brendan Fraser, Rosemarie DeWitt, Bill Murray, Dustin Hoffman, Demian Bichir e Danny Huston — para contar a trajetória de um homem marcado por um passado complexo.
Ainda para a sessão Cannes Premiere, há curiosidade em torno do filme samurai assinado por Kurosawa, intitulado Kiyoshi, Kokurojo, que amplia o leque de influências e genealogias do festival. A conjunção entre autores veteranos e vozes que retornam depois de lacunas prolongadas transforma este dia em um verdadeiro centro de gravidade para a reflexão cultural: o festival deixa de ser apenas vitrine para virar cenário de transformação.
Ao observar esses lançamentos lado a lado, percebe-se um padrão — a vontade de usar a forma cinematográfica como espelho e lente: espelho do nosso tempo, lente sobre escolhas individuais e coletivas. Em tempos onde a imagem viraliza em segundos, a experiência cannoise nos lembra que o cinema continua sendo um lugar de debate e memória, um arquivo sensível do presente.