Canone di Policleto: nova reconstrução em bronze apresentada em Pompeia revela policromia e um giavellotto
Nova reconstrução em bronze do Canone di Policleto em Pompeia destaca policromia e identifica um giavellotto como atributo.
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Canone di Policleto: nova reconstrução em bronze apresentada em Pompeia revela policromia e um giavellotto
Chiara Lombardi — Espresso Italia
Apresentado no Parco Archeologico de Pompeia, o renovado Canone di Policleto volta a encantar e a desafiar nossas percepções sobre a escultura clássica. A peça, agora recriada em bronze a partir dos históricos moldes da ex Fonderia Chiurazzi, inaugura um projeto que combina investigação científica, preservação patrimonial e reativação de saberes artesanais.
A nova reconstrução é fruto de mais de um século de estudos comparativos sobre as cópias romanas do original atribuído a Policleto (c. 440 a.C.). Para compor o corpo foi utilizado mármore recuperado na Palestra Sannitica de Pompeia, enquanto a cabeça bronzeada provém de um busto vindo da Villa dei Papiri de Herculano. Essa justaposição material retoma a prática antiga de diálogo entre suportes e atesta o rigor metodológico da intervenção.
Do ponto de vista da pesquisa, a reconstrução apresenta duas inovações relevantes. A primeira é a confirmação da policromia — um lembrete de que muitas imagens da Grécia clássica eram pintadas e não brancas como a iconografia modernista consagrou. A segunda é interpretativa: segundo os estudiosos envolvidos, a figura segura um giavellotto (dardo) e não uma lança. Esse detalhe iconográfico pode distinguir o Canone do célebre Doríforo e reabrir debates que duram décadas sobre identificação e função das réplicas romanas.
Além da estátua, a apresentação marcou o início de um programa de salvaguarda das matrizes da ex Fonderia Chiurazzi, adquiridas pelo Parque para impedir sua dispersão internacional. Essas matrizes são testemunhos materiais de uma tradição de reprodução e difusão da antiguidade que, por mais de um século, ajudou a modelar o imaginário clássico na Europa e além.
O projeto ambiciona restituir a Pompeia não só como reserva de memória, mas como um polo vivo de pesquisa e experimentação. A reativação das técnicas de fusione a cera persa e a articulação entre conservação e produção criam um cenário onde o passado fornece ferramentas para produzir conhecimento presente — um verdadeiro reframe do patrimônio.
Como observadora do zeitgeist cultural, vejo nessa iniciativa um espelho do nosso tempo: a busca por autenticidade passa pela técnica, mas também pela vontade de contar novas narrativas. Revelar a cor original das estátuas e corrigir um atributo aparentemente menor como o do giavellotto é, na verdade, reescrever um trecho do roteiro oculto da história da arte — e devolvê-lo ao público com a sensibilidade crítica que a contemporaneidade exige.
A exposição e o projeto que a envolve mostram que o diálogo entre arqueologia, ofício e curadoria pode abrir janelas para leituras mais complexas da antiguidade. Em outros termos, a nova versão em bronze do Canone di Policleto não é apenas uma réplica: é uma hipótese material sobre como a figura foi vista, usada e lembrada ao longo dos séculos.