Canzonissima de Milly Carlucci: nostalgia bem produzida, previsibilidade mortal
Canzonissima de Milly Carlucci é bem produzida, mas cai na previsibilidade ao transformar nostalgia em jukebox sem risco.
RESUMO ✦
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Canzonissima de Milly Carlucci: nostalgia bem produzida, previsibilidade mortal
Guarde este artigo e releia quando quiser: o espetáculo aqui analisado é, antes de tudo, um espelho do nosso tempo. A nova edição de Canzonissima, apresentada por Milly Carlucci na Rai1, reivindica um título histórico da televisão italiana, mas entrega sobretudo uma experiência segura e previsível — elegante na forma, pálida no risco.
O mecanismo é desarmantemente simples: reúne-se um elenco de intérpretes competentes para revisitar um repertório que já vem pronto. Não há mistério na seleção — sucessos como «Città vuota» de Mina, «Il mio canto libero» de Battisti, «Bella vera» dos 883, «Lontano dagli occhi» de Sergio Endrigo, e «Pregherò» de Adriano Celentano compõem uma playlist que se escreve sozinha. Em vez de um reescritor cultural, temos um grande jukebox humano, meticulosamente arrumado.
Essa opção reforça uma leitura: o programa funciona como uma terapia nostálgica. Se o verdadeiro Canzonissima — aquele exibido entre 1958 e 1975, associado à Lotteria di Capodanno — era ousado por sua capacidade competitiva, ritmo e pela força de personalidades capazes de sustentar o show, a versão atual prefere a segurança da lembrança. Aqui não há tanto o espírito de competição dramática, mas sim uma sequência de momentos bem-produzidos que raramente surpreendem.
Em cena, Milly Carlucci parece menos mestre de cerimônias e mais administradora de um produto cuidadosamente calibrado. O sentido é de um contrapeso nostálgico ao retorno de Amici: uma alternativa reconfortante para quem foge das emoções contemporâneas e prefere o refúgio do karaokê televisivo. Nesse afago ao passado, o programa encontra sua zona de conforto.
A bancada jurada — composta por Claudio Cecchetto, Francesca Fialdini, Pierluigi Pardo, Simona Izzo e Caterina Balivo — exala um entusiasmo tão contido que beira a previsibilidade. E os intérpretes — Malika Ayane, Elio e le Storie Tese, Enrico Ruggeri, Fabrizio Moro, Fausto Leali, Jalisse — cumprem o ofício com profissionalismo impecável. O problema central é justamente este: profissionalismo sem provocação transforma cada atuação em uma nota correta, mas sem arestas, sem choque estético.
O efeito final lembra mais um episódio de Techetechete' do que um show que se proponha a reinventar canções. É uma excursão guiada pela memória coletiva, agradável e bem editada, porém previsível. E, se novamente ouvir «Nessun dorma» em versão pop-orquestrada, juro que não farei prisioneiros.
No fundo, Canzonissima atua como um espelho: reflete um público que busca conforto e familiaridade. Mas a televisão, quando se limita a reproduzir afetos seguros, perde a chance de oferecer o inesperado — aquele reframe cultural que transforma simples covers em uma nova narrativa. E isso, em pleno século XXI, é um pecado imperdoável para quem se propõe a reescrever a memória musical.
22 de março de 2026