Claudio Bisio é o commissario guascone de Uno sbirro in Appennino: “Não sou fã das divisas”

Claudio Bisio interpreta um commissario rústico e humano em Uno sbirro in Appennino, série de Renato De Maria que estreia na Rai 1 em 9 de abril.

Claudio Bisio é o commissario guascone de Uno sbirro in Appennino: “Não sou fã das divisas”

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Claudio Bisio é o commissario guascone de Uno sbirro in Appennino: “Não sou fã das divisas”

Por Chiara Lombardi — Há um prazer irônico em assistir ao espelho do nosso tempo condensado em personagens que parecem ter saído de um roteiro tão íntimo quanto universal. Em Uno sbirro in Appennino, que estreia em 9 de abril na Rai 1, Claudio Bisio encarna um commissario singular, ao mesmo tempo áspero e terna, que reabre o arquivo das memórias e das contradições geracionais.

Dirigida por Renato De Maria, a série se propõe a reinventar o policial clássico: "não é o solito poliziesco", diz o realizador, "mas sim uma investigação feita à nossa maneira, com um personagem único que une a técnica investigativa à responsabilidade humana". O protagonista é Vasco Benassi, reputado melhor investigador de Bolonha que, após um erro profissional, é transferido como se fosse uma punição para Muntagò — um pequeno vilarejo fictício no Appennino bolognese, onde nasceu e que abandonou depois de uma experiência dolorosa.

Bisio descreve o seu Vasco como um "commissario di una certa età": rude por fora, mas de bom coração — um tipo naif que carrega traços do próprio ator. Filho dos Anos 70, Bisio confessa que, quando estudante, participou de ocupações liceais e nunca teve simpatia por uniformes, embora mantenha "assoluto rispetto" pelas forças da ordem. Essa tensão entre rebeldia antiga e respeito institucional funciona como o fio condutor do personagem e como um pequeno reframe da história coletiva.

No coração narrativo está a relação com Amaranta, interpretada por Chiara Celotto. A jovem policial traz o contraste geracional: um laço meio pai-filha, meio boomer versus geração Z, e por vezes Amaranta parece até uma espécie de cuidadora que reconecta Vasco ao presente. Entre os outros nomes do elenco, figuram Valentina Lodovini e Elisa D’Eusanio, que ajudam a compor um panorama social e afetivo do vilarejo.

Há aqui um roteiro oculto da sociedade: o retorno às raízes (literal e simbólico) que obriga o protagonista a revisitar memórias e a redesenhar seu lugar no mundo. A mudança de Bolonha para Muntagò é tratada como punição e salvação simultâneas — um movimento que expõe a semiótica do exílio interno, tão frequente na dramaturgia europeia.

Um gesto íntimo também conecta Bisio ao passado do teatro italiano: em 1987 participou de Morte accidentale di un anarchico, de Dario Fo, e lembra com afeto uma improvisação em cena — o gesto de apontar os dedos como espadas que virou uma pequena tradição nas repetições. É uma lembrança que diz muito sobre formação, mestre e discípulo, e sobre como o humor e a invenção cênica se infiltram no ator que hoje veste o casaco do commissario.

Em essência, Uno sbirro in Appennino promete mais do que casos policiais: é um estudo sobre identidade, memória e reconciliação, filmado sob o olhar atento de quem entende que o entretenimento funciona como um espelho cultural. Bisio, com sua mistura de ironia e humanidade, oferece uma performance que parece convidar o espectador a olhar além da superfície — para os motivos, os estratos e as ausências que moldam o presente.

Estreia na Rai 1, 9 de abril. Uma série que, como bom cinema europeu, não somente conta crimes: descasca camadas de sociedade.