Como o consumismo dominou o mundo: as cinco regras que moldaram nossa cultura do descarte

Documentário 'Buy Now' revela as cinco regras que tornaram o consumismo global: produção excessiva, descarte, greenwashing e controle da narrativa.

Como o consumismo dominou o mundo: as cinco regras que moldaram nossa cultura do descarte

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Como o consumismo dominou o mundo: as cinco regras que moldaram nossa cultura do descarte

Por Chiara Lombardi — Em uma época em que a cultura material fala mais alto que a ideologia, o documentário da Netflix Buy Now — dirigido por Nic Stacey — funciona como um espelho do nosso tempo: revela o roteiro oculto que transformou hábitos de uso e descarte em uma máquina global de produção incessante.

Se a pergunta é quando o consumismo suplantou o comunismo enquanto força cultural, a resposta não cabe em um simples «menos mal». O sistma estatal do século XX perdeu centralidade após 1991, com o colapso da União Soviética; mas o triunfo do consumismo se explica por outra logística: uma engrenagem que combina mercado, tecnologia e comunicação — até em países como a China, onde mercado e controle político se entrelaçaram, impondo um novo padrão global.

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O filme de Stacey documenta essa transição com depoimentos francos: nomes como o ex-presidente da Adidas, Eric Liedtke, o ex-CEO da Unilever, Paul Polman, e a ex-design de produtos da Amazon, Maren Costa, dizem-se arrependidos por terem alimentado uma produção desmedida sem considerar a ruína ambiental.

O documentário identifica cinco leis que sustentaram a vitória do consumo ilimitado. A primeira é a lógica de produzir sempre mais: o setor da moda, por exemplo, despeja cerca de 100 bilhões de peças por ano — o fenômeno da fast fashion que acelera ciclos de uso e descarte.

A segunda regra é empurrar para o descarte: torna-se socialmente e tecnicamente mais difícil reparar objetos. Lembra-se dos primeiros MacBooks, em que a bateria podia ser trocada? Hoje, uma cola especial transforma a reparação em algo quase impossível — e sobre esse tema poderia-se escrever um livro de filosofia sobre valor e obsolescência.

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A terceira é a ilusão do bem: o greenwashing funciona como maquiagem corporativa — promessas ambientais que raramente impedem que produtos acabem em aterros. A quarta regra é brutal e econômica: destruir o estoque não vendido para evitar reduzir preços e assim preservar margens, mesmo que o resultado seja desperdício.

Por fim, a quinta regra é o controle narrativo: empresas utilizam comunicação persuasiva para criar a crença de que se importam com o planeta e que estão solucionando o problema — um ato performativo que serve ao marketing mais do que à mudança estrutural.

O documentário, assim, não apenas denuncia práticas industriais; ele convida a uma reflexão sobre como nossas memórias coletivas e rituais de consumo foram redesenhados. O supermercado venceu o Politburo em termos simbólicos: onde antes havia planos estatais, hoje há vitrinas e algoritmos. Essa vitória cultural tem efeitos concretos — ambientais, sociais e políticos — e merece ser vista como parte do cenário de transformação global.

Ver Buy Now é, em última instância, um exercício de reframe: perceber que o que compramos e descartamos conta uma história sobre quem somos e quem queremos ser. E, como toda boa narrativa, cabe a nós decidir se continuamos a aplaudir o final ou se reescrevemos o roteiro.

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