Cosmo lança 'La fonte' e aposta em matinées: “Me dissocio do soft clubbing”

Cosmo lança 'La fonte': menos dance, matinées criativas e ruptura com o soft clubbing. Álbum chega em 17/04, tour começa no Mi Ami em maio.

Cosmo lança 'La fonte' e aposta em matinées: “Me dissocio do soft clubbing”

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Cosmo lança 'La fonte' e aposta em matinées: “Me dissocio do soft clubbing”

Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece tirar uma cena do roteiro íntimo de um filme europeu, Cosmo apresenta seu novo álbum La fonte, programado para sair em 17 de abril. Longe do rótulo único de produtor eletrônico, o artista de Ivrea, Marco Jacopo Bianchi, 44 anos, assina um trabalho que afasta intencionalmente os compassos mais acelerados da pista para se concentrar na construção da canção — como quem reescreve a trilha sonora de uma manhã que vira tarde.

“Não é um disco techno”, diz Cosmo, explicando que La fonte privilegia melodias mais clássicas e ritmos menos martelantes, buscando uma textura sonora mais sensual e acolhedora — “uma carícia”, nas suas palavras. Entre referências que vão de Lucio Dalla e Luca Carboni a nomes internacionais e urbanos como Bad Bunny, o álbum não abre mão da experimentação: há espaço para um trecho em valsa e para o uso abundante de autotune, que se torna ferramenta expressiva e não apenas artifício.

Na continuidade simbólica de Sulle ali del cavallo bianco, La fonte traz novamente a colaboração com o produtor Alessio Natalizia — e nos textos Cavamos sentimentos primários, atravessamos a dor e buscamos um colo sonoro em tempos conturbados. “Pensei muito sobre por que há tão pouca política nestas canções, num momento histórico em que tudo parece ruir — e percebi que este álbum é, antes de tudo, uma terapia. Um jeito de me mimar num período difícil”, confessa o músico. No tema “La fine”, ele reflete que a consolação reside na resistência: se uma parte da humanidade trabalha para destruir, outra parte se opõe e constrói.

Na prática ao vivo, Cosmo vira a expectativa de cabeça para baixo: o artista aposta em um formato de matinée para o seu tour — com início previsto em 24 de maio no festival Mi Ami, em Milão. “Fiz um show de manhã e me surpreendi com o que vivemos. As canções ficam mais à mostra”, conta. A ideia inicial era quase um manifesto para colonizar o tempo do trabalho: realizar apresentações às 8 da manhã durante a semana e estender com afterparties até o final da tarde. No final, o projeto foi adaptado para shows matinais aos fins de semana.

Importante salientar que esse formato se distancia do fenômeno do soft clubbing matinal que se espalhou pelas pistas: “Me dissocio completamente do soft clubbing — às 8 da manhã eu poderia muito bem já ter um coquetel na mão”, diverte-se, marcando território entre o conceito performático e a banalidade do modismo. É uma declaração que funciona como um espelho cultural: a tentativa de reescrever quando e como vivenciamos música enquanto ritual social.

O movimento de Cosmo revela mais do que uma guinada estilística; é um reframe da realidade sonora que nos convida a repensar o modo como consumimos música, tempo e afeto. Entre a sensualidade das novas batidas e a vantagem estratégica de matinées que expõem as canções, La fonte se apresenta como obra íntima e pública ao mesmo tempo — um pequeno mosaico sonoro que fala de cura, memória e resistência.

O disco e o tour prometem, portanto, oferecer não só faixas para dançar, mas momentos de escuta atenta: trilhas para manhãs que pedem outro ritmo, outro olhar. E, como em uma boa cena de filme, há sempre a pergunta subjacente: por que agora devemos reescrever o tempo do encontro musical? Cosmo responde com um álbum — e com o experimento público de tocar de manhã, quando o mundo ainda se ajeita.