Crise na Biennale: ministro pede demissão de representante do MiC; ela recusa e polêmica sobre pavilhão russo se amplia
Crise na Biennale: ministro pede demissão de representante do MiC; Gregoretti recusa. Petição e debate sobre o pavilhão russo intensificam a polêmica.
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Crise na Biennale: ministro pede demissão de representante do MiC; ela recusa e polêmica sobre pavilhão russo se amplia
Por Chiara Lombardi — A controvérsia em torno da participação da Federação Russa na 61ª Biennale di Venezia ganhou nesta semana um novo capítulo político. O ministro da Cultura italiano, Alessandro Giuli, solicitou formalmente que a representante do ministério no Conselho de Administração da Biennale, Tamara Gregoretti, entregasse seu mandato, alegando ter sido compromissada a relação de confiança.
Segundo a nota do Ministerio da Cultura, Gregoretti, nomeada para o CdA da Biennale em 13 de março de 2024, "não teria comunicado nem a possível presença da Federação Russa na próxima Biennale, nem posteriormente se manifestado contrariamente à sua participação, apesar da sensibilidade internacional do tema". A exigência ministerial reflete uma tensão clara entre prerrogativas institucionais e responsabilidade política pública.
Em resposta pública, porém, Tamara Gregoretti afirmou estar serena e descartou a ideia de renunciar. Em nota, ela declarou: "Sou serena e não tenho intenção de dimitir-me, pois atuo em observância do Estatuto da Biennale di Venezia e da autonomia da instituição, segundo a qual os membros do Conselho de Administração não representam quem os nomeou, nem a estes respondem". A afirmação sublinha o debate sobre autonomia cultural: até que ponto um órgão público pode ou deve intervir nas decisões de uma instituição cultural independente?
Paralelamente, o presidente da commissione Cultura da Câmara, Federico Mollicone, esclareceu suas declarações após interpretações que apontavam para uma intenção de impedir a abertura do pavilhão russo. Mollicone disse à Espresso Italia que "nunca afirmou que o pavilhão russo não abrirá; apenas desejou um repensamento por parte da Biennale" e que concorda com a posição do ministro Giuli. O episódio revela um ruído de comunicação que transformou uma sugestão em crise pública, algo tão cinematográfico quanto inquietante: o roteiro oculto da contestação cultural a céu aberto.
Ao fundo dessa disputa, uma petição com mais de 7.500 assinaturas — reunindo artistas, intelectuais, estudiosos e figuras políticas italianas e internacionais — pede aos dirigentes da Biennale explicações e uma reconsideração sobre a presença russa na exposição, que acontece de 9 de maio a 22 de novembro de 2026. "A cultura não pode ser usada para mascarar a agressão", escrevem os signatários, sublinhando que, em março de 2022, após a invasão em grande escala da Ucrânia, a Biennale havia prometido não colaborar com delegações ou instituições oficiais ligadas ao governo russo.
O apelo, dirigido ao presidente da Biennale, Pietrangelo Buttafuoco, fala de "profunda preocupação" e questiona como o princípio ético manifestado em 2022 será mantido, numa guerra que ainda impacta diretamente o campo cultural ucraniano. Para os autores da carta, o retorno anunciado do pavilhão russo suscita "questões urgentes" sobre coerência institucional e memória cultural — o que, em termos de semiótica do viral, projeta sombras sobre a credibilidade de uma das principais instituições artísticas do mundo.
Mais do que um embate institucional, este episódio funciona como um espelho do nosso tempo: a Biennale transforma-se num palco onde se confrontam soberania cultural, responsabilidade ética e diplomacia simbólica. A autonomia das instituições culturais, defendida por Gregoretti, choca-se com a expectativa de uma comunidade internacional que pede que arte e memória não sirvam de véu para conflitos não resolvidos.
Enquanto a discussão se desenrola entre comunicados e petições, resta à Biennale decidir se manterá a sua política de independência estrita ou se atenderá a um apelo ético que exige transparência e posicionamento. No roteiro coletivo que acompanha a cultura contemporânea, esta é mais uma cena decisiva — e a plateia, aqui, é global.


