Daniel Harding revela temporada heróica na Accademia di Santa Cecilia: elenco de maestros assusta pela qualidade
Daniel Harding conduz temporada heróica na Accademia di Santa Cecilia com Beethoven, Wagner, Petrenko e Hisaishi em programação de alto nível.
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Daniel Harding revela temporada heróica na Accademia di Santa Cecilia: elenco de maestros assusta pela qualidade
Por Chiara Lombardi — A nova temporada da Accademia di Santa Cecilia se anuncia como um grande espelho do nosso tempo: uma programação que conecta memória, rito e o sentimento público de heroísmo. Sob a batuta do diretor musical Daniel Harding, a temporada promete um roteiro dramatúrgico onde o heroísmo aparece em várias vozes — do conflito titânico de Beethoven ao mitológico forjar da espada em Sigfrido, passando pelo verismo de Pagliacci e pelas homenagens contemporâneas.
O ponto de partida dramático será a abertura em 21 de outubro com Sigfrido, inserido no ciclo da Tetralogia de Wagner. A programação também inclui duas óperas — novidade para Santa Cecilia — e um arco dedicado ao bicentenário de Beethoven, tratado como um titã que segue lutando com o destino e conosco: da Missa Solemnis dirigida por Fabio Luisi ao primeiro concerto para piano com Martha Argerich, passando por execuções raras como a cantata Cristo no Monte das Oliveiras e culminando na Nona, sob a direção de Daniel Harding. No verão, no cenário histórico de Massenzio, estarão previstas todas as sinfonias de Beethoven, com especial destaque para a Eroica que reforça o timbre heróico da temporada.
O presidente Massimo Biscardi sublinha a centralidade do bicentenário beethoveniano. Harding, em sua segunda temporada à frente da Orquestra, assina oito grandes produções, incluindo as raras cantatas de Ravel do Prix de Rome, e a já citada novidade de apresentar duas óperas no mesmo ano. No elenco vocal de Pagliacci figuram vozes de destaque: Brian Judge, Carolina López Moreno e o tenor mongol Ariunbaatar Ganbaatar, o que promete um encontro intenso de cores e verismo.
Um dos marcos internacionais será a presença de Kirill Petrenko com os Berliner Philharmoniker, um encontro de grande tensão simbólica e sonora. Ao todo, são 28 concertos com uma verdadeira galeria de maestros que, nas palavras de Harding, «assusta pelo nível», um comentário que funciona como diagnóstico: é raro achar tal concentração de maestros de altíssimo gabarito em muitas cidades.
Entre esses nomes estão Antonio Pappano, Manfred Honeck, Semyon Bychkov, Charles Dutoit e Tugan Sokhiev, este último com um programa intrigante que reúne a Toccata e Fuga em ré menor de Bach orquestrada por Stokowski e a cantata São João de Damasco de Taneyev, considerada um dos cimos do repertório coral russo. No concerto de Lorenzo Viotti, a solista será a violinista Lisa Batiashvili. A diretora de Hong Kong, Elim Chan, fará sua primeira temporada em Roma, e para encerrar, uma surpresa cinematográfica: o compositor e maestro Joe Hisaishi, frequentemente citado como o «Morricone japonês» por sua parceria com os filmes de Miyazaki, fechará a temporada.
No circuito de câmara, são 18 concertos que começam no Teatro dell’Opera, indicando um forte espírito de colaboração institucional. Haverá zarzuelas com a célebre soprano Lisette Oropesa; momentos de piano de alta voltagem com a dupla Kissin–Schiff, além de Pletnev, Sokolov, Beatrice Rana e o confiável Rudolf Buchbinder. Solistas de primeira linha, como o violinista Frank Peter Zimmermann e a violoncelista Sol Gabetta, enriquecem a cartela. A presença de intérpretes de música antiga em instrumentos originais, com direções como a de Christophe Rousset em Handel, confirma uma temporada que transita entre tradição e invenção.
Mais do que um calendário, essa programação funciona como um reframe cultural: é a semiótica do herói revisitada pelo repertório, um roteiro oculto que revela como a música orquestra memórias coletivas e expectativas sobre o presente. Em tempos de narrativas rápidas, a Accademia oferece longa duração — a experiência de ouvir uma sinfonia, uma missa ou uma ópera como prática de reflexão.


