Quando David Riondino escreveu “Maracaibo”: o noir tropical por trás do hit de verão
A história real de Maracaibo: David Riondino, Zazà, política e o hit de verão que esconde um noir tropical.
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Quando David Riondino escreveu “Maracaibo”: o noir tropical por trás do hit de verão
Por Chiara Lombardi — A morte de David Riondino, em 29 de março, trouxe novamente ao centro do palco uma canção que muitos lembravam apenas como um tormentone de praia. Mas a história por trás de Maracaibo não é um mero refrão de verão: é um pequeno noir tropical, tecido com traições políticas, tráfico de armas e a vida complexa de uma mulher chamada Zazà.
Para grande parte do público italiano, Maracaibo ficou na memória pela versão dançante que embalou discotecas e festas — e pela cena de Jerry Calà em Vacanze di Natale (1983), em que o personagem acompanha o ritmo com maracas. Há também a lembrança de uma apresentação interrompida na Domenica In, censurada antes da palavra “cocaina”. Mas o roteiro oculto desta canção é bem mais denso.
Escrita por Riondino em 1975 e publicada no ano seguinte (informação que só viria a ser plenamente reconhecida décadas depois), a música narra a vida de Zazà, uma bailarina cubana que se apresenta nua no clube “Barracuda” e, paralelamente, usa a cobertura para traficar metralhadoras e bazucas para os revolucionários. O enredo mistura amores e vigilâncias: ela pensa em Pedro, mas ama Miguel — figura que para muitos é a sugestão velada de Fidel Castro (“Miguel non c'era, era in Cordigliera da mattina a sera”).
Descoberta em sua duplicidade afetiva e política, Zazà é ferida por um tiro e decide fugir para Maracaibo. No trajeto, sobrevive a um ataque de um tubarão “com uma nadadeira negra”, chega à Venezuela e abre um bordel descrito com imagens cruas: “mulatte e rum e cocaina”. O tempo transforma seu corpo — “130 kg de massa crioula” — mas não apaga sua autoridade: rainha do bordel, ela exibe como troféu a marca do ataque no mar, “uma presa branca como a lua” na sua pele morena.
Em 1980 a canção ganhou roupagem dance pelos arranjos de Mario Saroglia e, em 1981, foi lançada pela gravadora Carosello na voz de Lu Colombo. A interpretação, com batidas caribenhas, transformou o texto sombrio em um hit de verão que dominou rádios e pistas. Riondino contou que na época lhe prometeram um “rideposito” com dupla assinatura, promessa essa que nunca se concretizou. Só em 2018 houve reconhecimento oficial da paternidade do texto — mas após longos anos sem o devido reconhecimento econômico.
Depois, Maracaibo teve outras versões, como a de Tony Carrasco pela Moon Records, e foi equivocadamente atribuída a nomes como Raffaella Carrà — reflexões que, mais do que confusões de crédito, dizem do modo como a cultura pop pode apagar a origem de seus contos. O hit, assim, funciona como um espelho do nosso tempo: um pequeno caleidoscópio onde tropicalia, política e exotismo se encontram e se mascaram.
Como observadora cultural, vejo em Maracaibo algo além do consumo de massas: é a semiótica do viral que esconde um roteiro de sofrimento e ambiguidade. A canção transforma uma história de exílio, violência e sobrevivência em festa — e essa tirada do submundo para a praia revela a maneira pela qual a memória coletiva reescreve, muitas vezes em ritmo de baile, as narrativas mais duras.
No balanço final, a história de Zazà e a trajetória de David Riondino são um lembrete de como canções aparentemente leves podem conter um mapa do mundo: contradições, ecos políticos e a permanência do talento que só o reconhecimento tardio tenta restaurar.