De Giovanni alerta: quando a realidade supera a ficção, o trabalho do giallista fica mais duro

Maurizio de Giovanni afirma que a realidade atual torna mais difícil para o giallista: violência nas relações e casos como o de Federico Venco superam a ficção.

De Giovanni alerta: quando a realidade supera a ficção, o trabalho do giallista fica mais duro

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De Giovanni alerta: quando a realidade supera a ficção, o trabalho do giallista fica mais duro

Por Chiara Lombardi — Em conversa com a imprensa, o romancista italiano Maurizio de Giovanni, autor da celebrada série Bastardi di Pizzofalcone e de Mina Settembre, traçou um diagnóstico inquietante sobre o papel do escritor policial na era contemporânea: a realidade tem ultrapassado a imaginação. Para quem vive do enredo, isso não é apenas um desafio estilístico, é um espelho do nosso tempo.

De Giovanni, que já vendeu cerca de cinco milhões de cópias e viu suas personagens ganharem vida na televisão, não economiza palavras ao descrever a atualidade: "A realidade frequentemente supera a imaginação, nós escritores não contamos o absurdo mas o normal". Em outras palavras, o roteiro oculto da sociedade hoje oferece finais tão extremos que por vezes deixam o romancista sem referências familiares para a construção do mistério.

O autor cita um caso emblemático e perturbador: a morte trágica de Federico Venco, o jovem atropelado e morto depois de ajudar uma desconhecida na rua, na província de Varese. Um episódio cuja crueldade e ferocidade desafia até o mais calejado criador de tramas. "Esse rapaz foi punido por um ato de normal generosidade", diz De Giovanni, sublinhando como a violência nas relações interpessoais parece hoje ter um alcance e uma intensidade inéditos.

Para o autor, parte do fenômeno se explica pela hiper-documentação proporcionada pelos aparelhos móveis: "Os telefones estão em todo lugar e permitem propagar esses gestos com uma amplitude de comunicação que antes não havia". O registro e a circulação desses atos transformam o fato em espetáculo e ampliam a sensação de incompreensão diante do mal gratuito.

Mas como conciliar essa nova realidade com a lógica necessária ao romance policial? De Giovanni lembra que o leitor é, em essência, um investigador: "Temos necessidade de lógica. Preciso contar algo que permita ao leitor reconstruir o que aconteceu. Contar uma história absurda não faz sentido". Ainda assim, ele reconhece que a própria realidade alimenta a fantasia e cria modelos narrativos passíveis de variação.

O autor revela também o núcleo de seu método criativo: não escreve a partir do ato violento documentado, e sim a partir do sentimento que o precede. "O semente do que escrevo é anterior à violência. Não me inspira o ato, mas o sentimento violento que vem antes: a vingança, o ciúme, a inveja". Observando esses elementos em gestação — uma inveja declarada, um desejo de revanche sussurrado — o escritor encontra o material para construir tramas que soem plausíveis e humanas.

Na metáfora cinematográfica que devolve sua voz de analista cultural: o trabalho do giallista hoje é como editar uma cena que já foi filmada pela sociedade, tentando impor um sentido onde o mundo real insiste em ser incoerente. É esse exercício de reframe da realidade que torna a experiência de leitura um espelho do nosso tempo, e ao mesmo tempo um desafio ético e estético para quem escreve sobre o crime.