Dimissão de Tommaso Montanari sacode Gallerie degli Uffizi após nomeação do novo CDA
Tommaso Montanari renuncia ao Comitê Científico dos Uffizi após nomeação do novo CDA; ministro Giuli chama justificativas de pretextuosas.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Dimissão de Tommaso Montanari sacode Gallerie degli Uffizi após nomeação do novo CDA
09 de junho de 2026 — Em mais um ato que revela o cenário de tensão entre política e cultura, Tommaso Montanari apresentou sua dimissão do Comitê Científico das Gallerie degli Uffizi, poucos dias após a nomeação do novo Conselho de Administração (Cda). A saída, formalizada ao MiC nesta terça-feira, reacende o debate sobre a politização de instituições culturais históricas.
Em sua declaração pública, Montanari foi direto: "Parlano di nazione, lavorano per la loro fazione; sono i patrioti che devastano la patria. Una vergognosa lottizzazione politica del Cda del museo da parte del ministro Giuli" — palavras que soam como um espelho do nosso tempo, apontando para o que ele define como uma lottizzazione partidária do cargo.
Do outro lado, o ministro da Cultura, Alessandro Giuli, respondeu com a concisão de quem quer encerrar a cena: "Montanari se n'è andato. E soli ci ha lasciato", citando Palmiro Togliatti. Giuli classificou as motivações do professor como "pretestuose" e defendeu as escolhas do Governo, citando profissionais de perfil técnico e internacional — entre eles o secretário-geral da Presidência do Conselho, Carlo Deodato, e a renomada curadora do MET de Nova York, Carmen Bambach, recentemente envolvida no comitê científico.
Na superfície, temos a troca formal de acusações: de um lado, a denúncia de uma nomeação marcada por alinhamentos políticos; do outro, a afirmação de legitimidade técnica. Mas, como observadora cultural, convoco o leitor a mirar além do rosto dos protagonistas. Essa disputa é também um pequeno roteiro sobre como memória, autoridade e representação se encenam hoje nas instituições — pouco diferente de um filme que repete o mesmo conflito entre ética e poder.
O episódio levanta questões cruciais: até que ponto a seleção de lideranças em museus nacionais deve priorizar expertise técnico-científica, experiências internacionais e conexões administrativas, e quando a escolha passa a ser percebida como captura política? A presença de uma curadora de prestígio internacional como Carmen Bambach e de um gestor como Carlo Deodato serve para desarmar críticas de clientelismo — ou, ironicamente, para acirrar ainda mais as suspeitas, porque a simbologia de poder internacional pode ser interpretada como conivente com interesses de gabinete.
Para a cena cultural italiana, a saída de Montanari funciona como um refrão: a institucionalidade artística é terreno de disputa pública e de definição de memória coletiva. A nomeação do Cda e a subsequente reação pública compõem, portanto, não só um acontecimento administrativo, mas um eco cultural sobre quem detém o direito de interpretar e gerir o patrimônio.
Enquanto o diálogo entre técnicos, intelectuais e políticos prossegue nos bastidores, resta à opinião pública ponderar se a solução está na maior transparência dos critérios de escolha, na profissionalização das nomeações ou num novo pacto público sobre o significado simbólico das instituições culturais. O episódio dos Uffizi, afinal, é um pequeno nódulo do roteiro maior que define o futuro do patrimônio em tempos de polarização.