Eurovision 2026: das noivas tricolores de Sal Da Vinci ao Garfield grego — as notas da primeira semifinal
As notas da primeira semifinal do Eurovision 2026: do Garfield grego às noivas tricolores de Sal Da Vinci e a Lituânia que copiou (mal) os Rockets.
RESUMO ✦
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Eurovision 2026: das noivas tricolores de Sal Da Vinci ao Garfield grego — as notas da primeira semifinal
Por Chiara Lombardi — A primeira semifinal do Eurovision em Viena foi um painel onde tradições, afetos nacionais e exibicionismos de palco desfilaram como num grande espelho do nosso tempo. Aqui estão as pagelle — notas e observações sobre os atos que passaram pela arena, com leituras que tentam ir além do brilho e do gesto: procurar o roteiro oculto da sociedade que cada performance traduz.
- Moldávia – “Viva, Moldova” – Satoshi 4,5
Um sovranismo em forma de pop, com rap noventista e sopros folclóricos que viram um coro de estádio. Satoshi ostenta a camisa com o número 373 e referências ao prefixo telefônico, enquanto frases em italiano, espanhol e inglês pontuam um hino que lembra a versão caciarona de “Viva l’Italia”. Contagioso, mas também um pouco confuso: celebração identitária ou kit de símbolos pronto para viralizar? - Suécia – “My System” – Felicia 7
A máquina pop sueca mostra sua eficiência: melodia construída com precisão e produção de alto nível. A letra sobre um amor tóxico cruza, no clímax, para um momento rave techno com lasers — um reframe sonoro que transforma a canção em pista de dança. Elegante e contemporâneo. - Croácia – “Andromeda” – Lelek 5
Vozes harmonizadas em tom folk, figurinos e cenário quase saídos de um episódio de fantasia épica. Por baixo, a narrativa é dura: guerra, invasões, violência e limpeza étnica. As cruzes tatuadas no rosto fazem referência às mulheres que usavam sinais de fé para resistir a conversões forçadas durante o império otomano. Uma pergunta fica no ar: até que ponto o Eurovision consegue — ou deveria — separar política e memória? - Grécia – “Ferto” – Akylas 5
É como se o Gangnam Style de Psy encontrasse o Zorba grego e a trilha sonora de um videogame. O destaque (ou choque) é o figurino: o cantor entra em cena caracterizado como Garfield, com doposci de pelo laranja. Trash deliberado, espetáculo que clama por atenção — e que, numa lógica eurovisiva, pode muito bem conquistar votos justamente por esse excesso. - Portugal – “Rosa” – Bandidos do Cante 6,5
O patrimônio imaterial do cante alentejano chega em forma de quinteto. Vozes que se entrelaçam sobre uma história de saudade, enquanto rosas gigantes dominam a tela e o palco. Um gesto de resistência afetiva: tradição bem tratada, emoção bem calibrada. - Geórgia – “On Replay” – Bzikebi 4,5
O trio volta a explorar uma estética de infância e invenção linguística — lembram-se do triunfo no Junior Eurovision? — com figurinos cyber e um apelo dance. A pegada é mais visual que textual; divertido, mas não desperta aquele impulso incontrolável de apertar o replay. - Itália – “Per sempre sì” – Sal Da Vinci 6
O vencedor de Sanremo traz o populismo afetivo do pop italiano com raízes napolitanas. A encenação se inspira num casamento tradicional: revela-se a saia da noiva que, num momento de espetáculo, descobre o tricolore. Um gesto que opera na nostalgia e na iconografia nacional — cenário e música unidos para falar de identidade. - Finlândia – “Liekinheitin” – Linda Lampenius & Pete Parkkonen 5
Violino clássico encontra eurodance: virtuosismo e espetáculo se atrapalham em busca de um tom épico que nunca se decide — fica entre a exaltação e a retórica excessiva. - Montenegro – “Nova zora” – Tamara Živković 5
Cori demasiado épicos, figurinos muito sombrios. A composição soa desproporcional ao que o palco pede; tudo fica fora de escala. - Estônia – “Too Epic To Be True” – Vanilla Ninja 5,5
Centelhas e pirotecnia em cena: a girl band propõe um pop rock bombástico que em vídeo e palco tenta convencer mais do que a música permitiria. Efeitos que, por vezes, eclipsam a canção. - Lituânia – (nota) 4
A atuação da Lituânia foi percebida como uma tentativa de emular os Rockets — referência aos artistas espaciais e glam rock — mas sem a mesma verve. Copiar elementos icônicos dá sinal de familiaridade; copiá-los mal revela a dificuldade de traduzir um ethos estético para a narrativa do palco eurovisivo.
Como crítica cultural, vejo nesta semifinal um curioso mapa de tensões: entre tradição e espetáculo, entre memória coletiva e meme instantâneo. O Eurovision continua sendo um espelho em que a Europa e seus ecos globais se reconhecem — ora com orgulho, ora com gargalhada. Alguns números apostam no trauma histórico; outros preferem o folclore convertido em hit; e há ainda quem venda a própria imagem como produto viral — neste festival, o formato do espetáculo muitas vezes diz mais sobre a época do que a própria letra da canção.
Nota final: a competição segue — e a próxima noite prometeu mais reframes e surpresas. Aqui, o importante é observar o porquê por trás do que vemos: o palco não apenas entretém, ele escreve capítulos do nosso imaginário coletivo.