Fabio Volo no topo da Torre Branca: a Rai esqueceu que ali nasceu a televisão italiana?

Fabio Volo grava na Torre Branca: a Rai Cultura esqueceu que ali, em 1939, nasceram os primeiros experimentos da TV italiana.

Fabio Volo no topo da Torre Branca: a Rai esqueceu que ali nasceu a televisão italiana?

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Fabio Volo no topo da Torre Branca: a Rai esqueceu que ali nasceu a televisão italiana?

Obrigado, Rai Cultura — e enfatizo Rai Cultura — por confiar a Fabio Volo um novo programa: Kong - Con la testa tra le nuvole na Rai3. A promessa visual é sedutora: cem metros de altura, o horizonte de Milão estendendo-se abaixo e a sensação de vertigem que acompanha qualquer fala transmitida do alto. Um cenário perfeito para conteúdo feito para o Instagram e para a selfie cultural.

Mas, entre o efeito cenográfico e o storytelling, chama atenção um esquecimento histórico curiosamente significativo. A Torre Branca, no Parco Sempione, não é apenas um ponto de observação bonito ou um objeto de branding turístico: é um lugar fundador da própria TV italiana. Não metaforicamente — literalmente.

Para quem gosta de remontar as imagens à sua matriz, vale um salto breve no tempo. Em 1929, nos estúdios do URI em Corso Italia 13, dois engenheiros, Alessandro Banfi e Sergio Bertolotti, começaram a testar a transmissão de imagens à distância. Eram tentativas experimentais, insuficientes mas esclarecedoras: algo novo surgia. Em 1932 chegaram equipamentos alemães mais sofisticados e, em 1933, a Mostra della Radio na Triennale apresentou os primeiros experimentos de radiodifusão visual a um público curioso.

O processo acelerou. Enquanto Roma fazia experiências em Monte Mario, Milão construiu infraestrutura. Em 1938 a EIAR comprou a torre — então conhecida como Torre Littoria — com o objetivo explícito de transformá-la em um centro emissor televisivo. No ano seguinte, no topo, foram instalados dois transmissores ligados por cabo coaxial: sinais de imagem e som começaram a viajar pelo ar, alcançando até cinquenta quilômetros.

O ápice simbólico desta fase veio em 16 de setembro de 1939, quando, na Mostra della Radio, teve lugar o primeiro programa experimental transmitido: um espetáculo ao vivo com Odoardo Spadaro, Nelli Corradi e Walter Molino. Naquele momento a palavra «direto» significava aventura tecnológica e social, um rito de passagem entre a promessa e a concretude do meio.

Projete-se a figura da torre idealizada por Giò Ponti: não apenas uma escultura de aço entre as árvores, mas um altar laico onde nascia uma forma nova de público e de paisagem mediática. Hoje a subida serve ao efeito televisivo e à estética do programa «entre as nuvens». Ontem, dali, projetava-se o futuro da comunicação italiana.

Não se trata de desqualificar a proposta de Fabio Volo nem de demonizar formatos contemporâneos. Trata-se, isso sim, de lembrar que os lugares carregam camadas de memória que dialogam com o presente. Um mínimo de respeito e um traço de memória histórica não fariam mal — sobretudo quando se decide ocupar simbolicamente um ponto tão decisivo do passado televisivo.

Chiara Lombardi, Espresso Italia — uma curiosidade sofisticada sobre como o entretenimento reflete e molda o nosso tempo.