Federico Taddia lança o 'book trekking': 20 adolescentes caminham para se reencontrar
Federico Taddia embarca com 20 adolescentes em um 'book trekking' pela Via degli Dei: livros, encontros e desconexão simbólica até 28 de agosto.
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Federico Taddia lança o 'book trekking': 20 adolescentes caminham para se reencontrar
Por Chiara Lombardi — Em uma cartografia que mistura tradição europeia e urgência contemporânea, o divulgador e autor Federico Taddia parte amanhã com um grupo de 20 adolescentes, entre 13 e 17 anos, para uma experiência que pretende reativar o contato humano por meio do passo e do relato. A jornada, que vai até 28 de agosto, começa em Bologna, segue pela Via degli Dei até o Passo della Fuga e depois prossegue em outros trechos: é o que ele batizou de book trekking.
Simplista na forma, radical na proposta: caminhar juntos, levar um livro como fio condutor e priorizar o análogo em vez do instantâneo. "Saremo io e 20 adolescenti... L'idea è quella di fare un 'book trekking'", disse Taddia — e a descrição vira manifesto. Cada jovem leva seu livro preferido; há um rito coletivo em que cada um explica por que escolheu aquela obra. Não se trata de leitura silenciosa e solitária, mas de usar os livros para falar, confrontar visões, construir narrativas compartilhadas. No ano passado, lembra ele, nasceram discussões acaloradas sobre qual era o melhor romance — uma disputa quase cinematográfica que revela afetos e identidades emergentes.
O mote do projeto é tão simples quanto profundo: "Se incontri gli altri incontri te stesso" — se você encontra os outros, encontra a si mesmo. É essa poética do encontro que orienta o festival Storie in Cammino, do qual o projeto faz parte, reunindo grupos de leitura de jovens por toda a Itália. A estratégia de Taddia é quase agrônoma: "os livros a gente vai semear" — eles são deixados nos pontos do trajeto, para que viajantes futuros os encontrem. Parte dessa economia simbólica é também presentear quem cruza o caminho, porque caminhar é, antes de tudo, cruzar.
Além da conversa literária, o roteiro inclui oficinas de yoga, gestão emocional, dança e arte. As regras sobre aparelhos são deliberadamente brandas: os celulares não são proibidos. "A ideia é se desconectar das redes sem dizer isso explicitamente", explica Taddia. A experiência do ano anterior mostrou que, mesmo levando o telefone, os jovens acabaram por esquecê-lo no fundo da mochila — um pequeno reframe da dependência digital, obtido pelo atrito da caminhada e pelo interesse compartilhado.
Para Taddia, o projeto funciona também como um "master em adolescência": imergir por dias no mundo desses jovens é uma forma de estudo etnográfico e, ao mesmo tempo, de aprendizado mútuo. Há um momento recorrente que, confessa, lhe toca: ver adolescentes caminhando sozinhos em silêncio, seguindo seu fio, como personagens em um plano de cinema que reaprendem a medida do tempo e a própria companhia.
Como analista cultural, percebo nesse formato um eco da semiótica do viral e um convite ao reframe da realidade: transformar o roteiro urbano e as rotas do lazer em um laboratório de socialidade. O book trekking não é apenas uma alternativa lúdica ao scroll infinito — é uma intervenção no modo como a lembrança coletiva e a identidade se tecem: passos, palavras, presentes deixados no caminho. É o tipo de cena que nos lembra por que histórias e trajetos sempre se viram como espelho do nosso tempo.

