Veneza 83: o cinema volta a medir forças com o poder, a memória e as feridas do presente

Veneza 83: Mostra de Cinema confronta poder, memória e feridas do presente em filmes que transformam imagem em juízo público.

Veneza 83: o cinema volta a medir forças com o poder, a memória e as feridas do presente

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Veneza 83: o cinema volta a medir forças com o poder, a memória e as feridas do presente

Da guerra à vida cotidiana, do poder dos meios de comunicação às cicatrizes do trabalho: os filmes em competição em Veneza 83 compõem um atlas das inquietações contemporâneas. Entre 2 e 12 de setembro, a Mostra se apresenta como um espelho do nosso tempo, onde narrativas diversas convergem para a mesma questão central: o que resta do indivíduo quando a História, o poder, a família ou o trabalho redesenham seu roteiro?

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Não é casual que a abertura recaia sobre Danny Boyle com Ink. A trajetória que transforma a emergência do império midiático de Rupert Murdoch e a metamorfose do The Sun em tablóide num veículo capaz de desafiar o establishment é, ao mesmo tempo, relato histórico e estudo de linguagem pública. Boyle, cineasta fascinado pela energia coletiva e pelas ruínas emocionais que ela deixa, posiciona já no início da competição a urgência de uma pergunta: quem decide o que uma sociedade deve ver, saber e desejar?

Em outra vertente do mesmo espelho, Lance Oppenheim com Primetime transfere ao centro o poder televisivo. Seu primeiro longa de ficção reconstrói a história do jornalista Chris Hansen e do programa To Catch a Predator, e converte um fenômeno televisivo em reflexão sobre o limiar entre denúncia e espetacularização. Quando a realidade vira espetáculo, quem segura o controle do dispositivo passa a moldar emoções, condicionar julgamentos e redesenhar sentidos públicos.

A seleção também insere com intensidade a crise contemporânea: Naza, assinado por Yuval Abraham e Rachel Szor — dois dos quatro diretores de No Other Land, documentário vencedor do Oscar de 2025 — leva a câmera para os telhados de Tel Aviv. Produzido por The Guardian e James Wilson, com Jonathan Glazer como produtor executivo, o filme observa de perto os mecanismos por trás da calculada matança de civis palestinos em Gaza, e fecha o circuito sensível do concurso ao colocar a interseção entre indivíduo, poder e dispositivos imagéticos no centro do debate.

O tema do poder ressurge ainda sob formas variadas em projetos que reencenam a memória e a história como aparelhos de pressão sobre a subjetividade. É o caso de Dau, do diretor que renunciou à cidadania russa, Ilya Khrzhanovsky, um empreendimento radical que reconstrói um instituto soviético ao redor da figura do físico Lev Landau. Ali, a História não é apenas cenário: é um laboratório que experimenta identidades, hierarquias e sofrimento — a grande tela onde o passado pede contas ao presente.

Ao percorrer a lista de títulos do Concorso fica claro que a Mostra funciona como um roteiro oculto da sociedade: histórias pessoais que, ao se desdobrarem, revelam os aparelhos institucionais que as atravessam. São filmes que estudam os modos pelos quais a informação se transforma em espetáculo, como o espetáculo se converte em legenda moral e como, por fim, a memória — privada ou coletiva — reclama reparação ou condenação.

Como analista cultural, observo que não se trata apenas de denunciar abusos de poder: é perceber como as imagens e narrativas cinematográficas se tornam dispositivos de memória e julgamento. Em Veneza, a seleção não oferece respostas prontas; propõe quadros, enquadramentos e lentes para entender por que certas feridas do presente continuam a sangrar. O cinema, aqui, funciona como um reframe da realidade: não para embelezá-la, mas para expor suas conexões subterrâneas e nos forçar a olhar — e a decidir — diante do espelho.

Da mesa de imprensa ao tapete vermelho, Veneza 83 parece lembrar que o entretenimento nunca é neutro. É, sobretudo, um campo de batalha simbólico onde se disputa o sentido da memória, o alcance do poder e as formas de recomeço. E, como todo bom roteiro, as perguntas que esses filmes suscitam permanecem depois dos créditos: quem detém a imagem e que histórias permitimos que moldem nosso futuro?

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