Gaddo della Gherardesca: com elegância preservando 1.200 anos de memória na Toscana

Gaddo della Gherardesca conta memórias da Toscana e do Castello di Castagneto Carducci em uma biografia proustiana sobre memória e legado.

Gaddo della Gherardesca: com elegância preservando 1.200 anos de memória na Toscana

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Gaddo della Gherardesca: com elegância preservando 1.200 anos de memória na Toscana

Por Chiara Lombardi — Em uma escrita que é ao mesmo tempo íntima e deliberadamente contida, Gaddo della Gherardesca entrega ao leitor uma biografia singular publicada pela Rizzoli: Al tempo di una volta. Tracce di una vita. Não espere grandes revelações ou gestos heróicos: o tom é o de quem organiza o magazzino disordinato que é a memória, recolhendo fragmentos de uma vida marcada por laços profundos com a Toscana e com o Castello di Castagneto Carducci, símbolo perene de uma família e de uma certa civilização.

Descendente do lendário conte Ugolino — figura evocada na Divina Commedia de Dante — Gaddo narra oito capítulos que funcionam como grandes recipientes de recordações: passagens da infância e juventude, os anos de formação em colégios como o Collegio La Quercia e o austero porém formador Morosini em Veneza ("ali ho imparato a vivere", lembra), além de memórias de Villa Emilia, as férias na Sardenha em Santa Caterina di Pittinuri, e o cotidiano aristocrático entre a propriedade e as famílias camponesas que gravitaram em torno da casa.

As lembranças atravessam o século XX — entre risos, ironias e dores — e surgem como flashbacks que conferem ao livro um perfume quase proustiano. Gaddo recorda episódios dramáticos da Segunda Guerra Mundial: seu pai e seu avô foram salvos graças ao zelo de um brigadier que os avisou sobre a chegada das SS, permitindo que fugissem e se escondessem. Esse fio pessoal cruza grandes eventos: alianças com a monarquia dos Saboia, e até um enlace familiar com uma princesa Kurakin que fugira da Revolução de Outubro.

Entre reflexão e aforismo, o autor revive também conselhos do avô — pequena joia de ironia social: "quando a gente andava a pé nós tínhamos cavalos; quando começaram a cavalgar nós tínhamos carroças; quando todos andavam de carroça nós já tínhamos automóveis. Agora que todo mundo tem carro, talvez seja hora de voltar a caminhar" — uma observação que funciona como um espelho do nosso tempo e um reframe sobre progresso e distância humana.

Heráldica e história se entrelaçam: o brasão da família — a águia negra de asas abertas, concedida pelo imperador Frederico II — surge como metáfora de autoridade e continuidade. Há na narrativa o sentido de um patrimônio civilizacional com mais de 1.200 anos, mantido com "grande modestia", nas palavras do próprio Gaddo. A mensagem não é folclórica; é uma pergunta sobre memória coletiva e responsabilidade de guardiões de tradição no cenário contemporâneo.

O livro não é apenas crônica aristocrática: é também um inventário sentimental de relações humanas — mais diretas, mais humanas, segundo a saudade que permeia a obra — e um convite sutil para pensar como o passado molda identidades presentes. Lido como um pequeno tratado de antropologia íntima, Al tempo di una volta nos lembra que herança é tanto o que se preserva nos muros do Castello di Castagneto Carducci quanto nos interstícios das lembranças individuais.

Em tempos de polarização e reabertura de velhas feridas, a voz de Gaddo sugere, com delicadeza e lucidez, que o país precisaria reencontrar uma unidade que respeite diferenças sem transformar memória em instrumento de rancor. É nesse ponto que a obra se torna mais do que memórias privadas: é um pequeno espelho cultural que provoca o leitor a perceber o roteiro oculto da sociedade e a semiótica do próprio vir a ser.