Giada Peca e Jessica Petrizzo: as artistas que traduzem e multiplicam interpretações da crise da modernidade
Giada Peca e Jessica Petrizzo usam arte para decifrar a crise da modernidade, entre tecnologia, identidade e memória coletiva.
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Giada Peca e Jessica Petrizzo: as artistas que traduzem e multiplicam interpretações da crise da modernidade
Por Chiara Lombardi — Em um tempo em que o futuro perdeu a espessura de outrora, a obra de Giada Peca e Jessica Petrizzo surge como um espelho crítico: não apenas refletindo o presente, mas desconstruindo as imagens que tomamos por horizonte. Essas artistas trabalham a arte como um roteiro oculto da sociedade, onde a memória coletiva e a velocidade tecnológica se encontram em tensão.
A história longa da modernidade — desde as esperanças depositadas no tempo futuro, passando pelas promessas de emancipação social e progresso econômico que marcaram os séculos XVIII ao XX — parece ter chegado a um ponto de ruptura. O colapso da União Soviética e a queda do muro de Berlim redefiniram as narrativas coletivas: abre-se a liberdade individual, porém surge também uma sensação de crise da modernidade, de perda de projeto e de horizonte comum. Pensadores como Francis Fukuyama e Jean-François Lyotard capturaram esse desalinho: o fim das grandes narrativas, o desaparecimento de um “avvenire” estruturante.
No cenário contemporâneo, acelerado pela tecnologia e pela globalização, o tempo tornou-se impalpável. A ciência e a técnica colonizaram a percepção, deixando a dimensão simbólica ferida, mas viva nas artes. É nesse interstício que Peca e Petrizzo atuam, convocando referências que vão de Foucault e Baudrillard a Umberto Eco — autor de Apocalittici e Integrati — para pensar identidades, corpos e imagens em mutação.
A produção das duas artistas não é um manifesto fácil: é um multiplicador de sentidos. Em instalações que dialogam com o espaço público e privado, com mídias analógicas e digitais, elas promovem uma espécie de reframing da realidade. O corpo aparece como superfície e arquivo: ao mesmo tempo objeto a ser preservado (na obsessão estética e biotecnológica) e peça de um quebra-cabeça identitário. A técnica, por sua vez, não é apenas ferramenta, mas ator — ela modela desejos e medos, cria espelhos falsos e autênticos.
Em exposições recentes, essa tensão entre virtual e real ganha linguagem concreta: camadas de vídeo, objetos cotidianos deslocados, textos fragmentados que funcionam como legendas de um filme que nunca acaba. O espectador é convidado a ser coautor — a multiplicidade de interpretações é a própria política da obra. Peca e Petrizzo celebram essa crise: não como catástrofe final, mas como oportunidade estética para reavaliar o que significa ser humano em plena acelerada transformação.
Do ponto de vista cultural, suas obras nos forçam a revisitar o passado das utopias e a reconhecer como as promessas palingenéticas deram lugar a um individualismo ansioso. Ao mesmo tempo, elas lembram que a arte continua sendo um dos poucos territórios onde se pode experimentar novos mapas de sentido: uma semiótica do viral, onde imagens circulam e voltam alteradas. Assim, Peca e Petrizzo não apenas documentam a crise: elas a dramatizam, oferecendo fragmentos para reconstruir narrativas possíveis.
Em um café entre Milão e Roma imaginaríamos a cena como uma projeção: seus trabalhos atuam como projeções cinematográficas sobre a parede da nossa época, delineando um roteiro que nos chama a pensar o “porquê” por trás do espetáculo. Se a modernidade perdeu o futuro, a arte delas nos dá uma pista — discreta e potente — de como arquitetar novos horizontes simbólicos.
Obra e reflexo: Giada Peca e Jessica Petrizzo multiplicam interpretações para que possamos, finalmente, reconhecer o que perdemos e o que ainda é possível narrar.