Gino Paoli e a dor infinita pela perda do filho Giovanni: «Deveria ter morrido antes de mim»
Gino Paoli lamentou a perda do filho Giovanni, morto por infarto aos 60 anos; o cantor definiu a dor como 'uma injustiça atroz'.
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Gino Paoli e a dor infinita pela perda do filho Giovanni: «Deveria ter morrido antes de mim»
Gino Paoli, ícone da canção italiana, carregava uma dor que parecia não ter fim — a perda do filho Giovanni, vítima de um infarto aos 60 anos. A notícia da morte do próprio Paoli, ocorrida na manhã de terça-feira aos 91 anos, volta o olhar para esse episódio íntimo que ele havia definido como uma verdadeira injustiça.
No dia 7 de março de 2025, Giovanni Paoli, nascido em 1964 em Gênova do primeiro casamento de Paoli com Anna Maria Fabbri, morreu subitamente. Jornalista de formação, Giovanni também seguira, em parte, os passos artísticos do pai: chegou a tocar na banda que acompanhava o cantor nos concertos. A perda, como disse Paoli em entrevista, foi 'um sofrimento que ainda não superei. Me pesa muito falar disso'.
Ao recordar a tragédia, o compositor chegou a confessar: 'É uma injustiça atroz: o pai deve morrer antes do filho, eu deveria ter morrido antes dele'. Essa frase, crua e direta, funciona como um espelho do tempo — um diálogo entre legado, vulnerabilidade e a ordem esperada das coisas.
A história familiar de Gino Paoli é também uma página do tecido cultural italiano: em 1964, além de Giovanni, Paoli teve Amanda Sandrelli, fruto da relação com Stefania Sandrelli, episódio que alimentou escândalos e boatos da época, mas do qual saíram os dois filhos fortalecidos. Ao longo da vida, Paoli teve cinco filhos; com a atual esposa, Paola Penzo — com quem se casou em 1991 — são Nicolò (nascido em 1980), Tommaso (1992) e Francesco (2000).
Musicalmente, Gino Paoli foi a voz e o roteiro de uma Itália dos anos 1960, com canções que se tornaram parte do imaginário coletivo, como 'Il cielo in una stanza' e 'Sapore di sale'. Essas composições funcionaram como a trilha de um país em transformação, onde o privado e o público se encontram no palco e na memória.
Ao olhar para a figura de Paoli hoje, não se trata apenas de lamentar a ausência de um autor de clássicos; trata-se de ler o seu percurso como um reframe da realidade cultural: os amores notórios — como a relação com Ornella Vanoni —, os excessos, as convicções sobre vida e morte, e até episódios pessoais extremos, como a tentativa de suicídio relatada na juventude, compõem um enredo que extrapola a música. Paoli, com ironia e lucidez, afirmou em entrevistas que acredita em reencarnação — 'renascerei gata' — revelando uma maneira singular de encarar a continuidade do ser.
As reações à sua morte vindas de colegas e amigos — de Mogol a Renzo Arbore, de Fazio a Morandi — traduzem o significado de sua obra: canções que foram 'quadros' de uma época e que agora fazem parte de um testamento cultural. Mas entre esses acenos públicos, a fala sobre a morte do filho lembra que mesmo as vozes mais célebres carregam, por trás da performance, feridas que a fama não cura.
Como observadora do zeitgeist, penso que a história de Gino Paoli e de Giovanni revela o roteiro oculto das relações públicas e privadas: a música como espelho, a perda como narrativa e o legado como terreno de passagem. A dor que Paoli pronunciou permanece como um eco cultural, uma pergunta sobre ordem, justiça e a fragilidade humana no centro do palco.