Gino Paoli e o laço indissolúvel com Gênova: dos 'amici al bar' à 'scuola genovese'

Gino Paoli e o vínculo com Gênova: dos 'amici al bar' à 'scuola genovese', ecoando na cena atual entre cantautores e novas gerações.

Gino Paoli e o laço indissolúvel com Gênova: dos 'amici al bar' à 'scuola genovese'

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Gino Paoli e o laço indissolúvel com Gênova: dos 'amici al bar' à 'scuola genovese'

Por Chiara Lombardi — Há laços que funcionam como um espelho do nosso tempo: refletem territórios, memórias e o roteiro oculto de uma cidade que molda artistas. Nasceu em Monfalcone, na província de Gorizia, mas para Gino Paoli a cidade de referência — tanto humana quanto artística — sempre foi Gênova. Sua mãe, Rina, escolheu o regresso à casa de origem para o parto, um gesto familiar que quase antecipa o retorno afetivo que o cantor manteria com a cidade.

A intimidade com Gênova passa pelas amizades informais, pelos encontros nos cafés — os famosos «amici al bar» — e por uma rede que inclui nomes improváveis à primeira vista: o arquiteto Renzo Piano, o jornalista Arnaldo Bagnasco e Giulio Frezza, amigo dos tempos da Accademia delle Belle Arti. Entre eles, a presença de Renzo Piano é quase cinematográfica, uma silhueta que atravessa o cenário urbano como um personagem secundário com força simbólica.

Há também, nas memórias, a relação com Beppe Grillo, que se manteve sincera apesar das divergências políticas — um lembrete de que as afinidades culturais frequentemente atravessam rachas ideológicos. E há a canção La gatta, cuja metáfora da saudade aponta para Boccadasse, a casa da juventude deixada para tentar a sorte em Roma: uma sequência de imagens que revela o quanto a cidade era o centro do mundo para Paoli.

Gênova não foi apenas um território; foi uma escola — a célebre scuola genovese. Porto que recebia discos americanos antes de muitos outros lugares, a cidade transformou-se, entre os anos 1950 e 1960, em laboratório musical. No bairro da Foce germinou uma geração que incluía Bruno Lauzi, Umberto Bindi, Luigi Tenco, Fabrizio De André, os irmãos Reverberi e, claro, Gino Paoli.

Mas essa "escola" não tinha manifesto: era uma convergência de olhares. Cada um dos cantautores desenvolveu sua linguagem própria, deslocando a canção para uma esfera mais íntima, introspectiva e menos melodramática — influências que vinham do chanson francês e do existencialismo. Do ponto de vista estético, era um reframe da realidade: mais crua, menos idealizada. Havia também um jogo de imagem — a timidez de James Dean que, segundo Paoli, servia tanto para seduzir quanto para compor uma persona pública.

Décadas depois, a cidade volta ao centro do mapa cultural: o grifone retorna à cartografia da música italiana. A nova cena mostra a Zêna cantautorale de nomes como Olly e Alfa, a vertente trap de Tedua e a ponte entre mundos representada por Bresh. "Um gigante da música italiana e um revolucionário da canção", diz Alfa sobre Paoli; "um ponto de referência" para quem vem de Gênova. Bresh publica fotos do encontro com o mestre: "Que sorte te conhecer, foi um dia memorável"; Olly reage com um coração sobre fundo preto — pequenos rituais digitais de veneração e memória.

Documentários como o de Claudio Cabona ajudam a pôr em diálogo gerações aparentemente distantes, reforçando o fio que liga a tradição da scuola genovese ao presente. No conjunto, a trajetória de Gino Paoli aparece não apenas como a biografia de um artista, mas como um mapa afetivo e cultural — o roteiro de uma cidade que permaneceu, para ele e para muitos, um ponto de ancoragem e de inspiração contínua.