Giorgia reencontra a vontade de escrever: longe de Sanremo, de coração nos palcos

Giorgia reencontra a vontade de escrever, evita o retorno competitivo ao Sanremo e celebra turnê esgotada com novo impulso criativo.

Giorgia reencontra a vontade de escrever: longe de Sanremo, de coração nos palcos

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Giorgia reencontra a vontade de escrever: longe de Sanremo, de coração nos palcos

Por Chiara Lombardi — Há momentos na vida artística que funcionam como um espelho do nosso tempo: reflexos que forçam a reinvenção. Foi assim para Giorgia, que admitiu ter quase abandonado o ofício de cantora para se perder em outra carreira. Dois anos atrás, entre os bastidores e os reflexos televisivos, ela repetia que era “uma apresentadora” durante a experiência em X Factor. Mas o roteiro oculto da sua trajetória foi reescrito pelo próprio grupo que a cerca: seu time devolveu-lhe a confiança e a canção voltou a ser casa.

Do reencontro nasceu La cura per me, que a cantora levou ao palco do Sanremo e que se transformou, no último ano, em um dos hits mais ouvidos por streaming — segunda música em número de plays — e motor do álbum G, certificado disco de ouro. “Depois de 30 anos, surpreende-me o que está acontecendo. É como se eu tivesse recomeçado, e bem”, ela disse, reconhecendo a raridade desse momento para sua geração.

Esse eco cultural de popularidade não permaneceu confinado às paradas: traduziu-se em público e casas cheias. O circuito dos palazzetti foi todo esgotado — 19 shows, com o desfecho ontem em Pádua — e agora a agenda se amplia com 11 datas de verão e cinco no outono, culminando no novo Dome di Milano em 3 de outubro. Em tom quase cinematográfico, Giorgia já imagina convidar os colegas que a acompanharam nessa fase: Elisa, Blanco, Annalisa, Eros, Irama, Emma, Marracash e Luché.

Houve, no entanto, uma época de dúvidas. A pandemia trouxe um momento de interrogação profunda: “Não sabia mais o que cantar, nem como escrever”. A transformação do cenário musical italiano — em que o rap remodelou métricas e harmonias — não ficou distante do seu universo. Pelo contrário: muitas das inovações dos novos autores partem de um mesmo reservatório sonoro que sempre nutriu a sua música. Em vez de recusar, ela cantou essas novidades, apropriou-as, e isso desbloqueou sua pena. Foi depois de Diamanti e do especial que cantou com Luché e Marracash que a escrita voltou a fluir.

Quanto aos palcos, a lógica comercial poderia ter empurrado a cantora aos estádios — “Me ofereceram, mas não me deixaram fazer”, ela ri —, porém sua ambição sempre foi mais íntima: voltar aos clubes, recuperar a melancolia dos primórdios e a visão ideal de um espetáculo centrado nas canções. Para Giorgia, a essência da música não muda entre teatro, clube ou stadio: muda, sim, a arquitetura do show.

Ao vivo, a voz continua sendo o fio condutor. No Fórum de Milão, a interpretação de “Come vorrei” arrancou uma ovação em pé; “Tu mi porti su” revelou virtuosismos que lembram a linguagem de um grande maestro. A cenografia evita o megatelão tradicional: em vez disso, a produção usa 12 painéis de LED que, como quadros, molduram a presença da cantora e da banda — uma escolha que privilegia a composição visual. Nem tudo, porém, é perfeito: os medleys iniciais podem pesar e os visuais, por vezes, tornam-se intrusivos na experiência.

Este momento de Giorgia funciona como um reframe da realidade: não é apenas o retorno de uma estrela, mas a narrativa de uma artista que reaprendeu a se ouvir, a escrever e a escolher onde quer voltar. É o roteiro afetivo de quem, depois de desacreditar, encontrou novamente a vontade de compor — e, ao fazê-lo, renovou o seu lugar no presente cultural.