Giorno per giorno: a fábula de Giada Fioravanti sobre o tempo, recomeços e felicidade

Giorno per giorno, de Giada Fioravanti: uma fábula sobre tempo, recomeços e a busca por felicidade em horas contadas.

Giorno per giorno: a fábula de Giada Fioravanti sobre o tempo, recomeços e felicidade

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Giorno per giorno: a fábula de Giada Fioravanti sobre o tempo, recomeços e felicidade

Por Chiara Lombardi — Em Giorno per giorno, obra de Giada Fioravanti ilustrada por Carola Ghilardi e publicada pela Kou Kou Edizioni, o tempo deixa de ser uma linha contínua e transforma-se numa unidade medida em horas. Nesta pequena nação imaginária, a idade não se conta (seria complexo demais): permanece-se jovem até que, simplesmente, deixe de se ser. Não há ansiedade pelo amanhã, nem pressa; a vida corre feita sequência de instantes, como cortes de um filme onde cada take tem duração limitada.

À primeira vista, o lugar parece um ideal: não se espera nada nem se lamenta o que passou. Mas essa aparente perfeição tem suas dissonâncias. Trens que nunca se conseguem pegar, aviões que partem sempre cedo demais ou tarde demais, peças de teatro que já terminaram quando se chega ou ainda vão começar — pequenos desequilíbrios que, na narrativa, nos lembram que toda utopia tem sua fratura.

O gesto fantástico da história acontece numa noite em que todos os relógios param e, depois, recomeçam a contagem a partir do número 1. É esse recomeço que abre a verdadeira pergunta do livro: o que se faz com uma nova contagem do tempo? A resposta de Fioravanti evita o maniqueísmo. O reinício não é apagamento do passado, mas uma convivência serena entre o que foi e o que pode ser. A felicidade, então, deixa de ser a soma de horas e passa a ser a qualidade das horas vividas — um princípio que ecoa a máxima do livro: “a felicidade não é acrescentar tempo à vida, mas vida ao tempo”.

Na primeira parte, a prosa tem cadência infantil, imagens nítidas e situações quase lúdicas — lembranças inevitáveis dos «paesi» fantasiosos de Gianni Rodari e do personagem Giovanni Perdigiorno. Já a parte final introduz uma figura adulta: uma mulher que há tempo tenta entender se ainda tem tempo para ser feliz. É ela quem confere ao conto um registro emocional mais denso, um close que transforma a fábula em espelho para leitores de todas as idades.

Importante notar o trabalho editorial por trás da publicação. A Kou Kou Edizioni, pequena editora independente fundada em Roma em 2025, aposta em fábulas contemporâneas nascidas de memórias domésticas e experiências cotidianas. Muitas histórias vêm de relatos de casa e ganham corpo com ilustrações pensadas para um público familiar. Além disso, cada livro é acompanhado por um pequeno texto de uma psicóloga infantil, que ajuda a explorar emoções e significados — uma estratégia que reforça o caráter educativo e afetivo das obras.

Como analista cultural, vejo em Giorno per giorno não só uma fábula infantil, mas um dispositivo semiótico que fala sobre a nossa era: tempos fragmentados, segundas chances que se tornaram rotina, e a urgência de reformatar o sentido de felicidade. O livro funciona como um reframe da realidade, um roteiro curto que nos convida a olhar para o tempo como matéria moldável — e a considerar cada reinício como uma cena nova, com possibilidades próprias.