Giovanni Allevi no Verissimo: o relato da luta contra o mieloma múltiplo e a música como resistência
Giovanni Allevi fala em Verissimo sobre a luta contra o mieloma múltiplo: música, tratamento e retorno no Festival de Sanremo.
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Giovanni Allevi no Verissimo: o relato da luta contra o mieloma múltiplo e a música como resistência
Giovanni Allevi é recebido hoje no sofá de Verissimo, onde volta a narrar a sua batalha contra o mieloma múltiplo, a doença que, desde 2022, o obrigou a uma pausa forçada na carreira. O encontro com Silvia Toffanin transforma-se em um espelho do nosso tempo: não apenas o desabafo de um artista, mas o reframe pessoal e público de uma experiência que mistura dor, resiliência e criação.
Nascido em 9 de abril de 1969, em Ascoli Piceno, Allevi construiu uma trajetória que atravessa conservatórios e salas de concerto europeias. Diplomado em piano no Conservatorio Morlacchi de Perugia e em composição no Verdi de Milão, graduou-se em filosofia na Universidade de Macerata e aperfeiçoou-se na Accademia Internazionale di Alto Perfezionamento de Arezzo. Em 2023, recebeu a laurea honoris causa em Filosofia pela Universidade de Macerata, um reconhecimento que faz ponte entre sua obra musical e suas reflexões existenciais.
Além da carreira internacional como pianista, compositor e regente, Allevi é também autor e figura pública que vem debatendo abertamente questões pessoais: é casado com a gerente Nada Bernardo e pai de Giorgio e Leonardo; revelou publicamente ser portador da Síndrome de Asperger e já falou sobre ataques de pânico. Em 2022, anunciou nas redes sociais o diagnóstico do mieloma múltiplo, um tumor que afeta células do tecido medular. A notícia o afastou dos palcos, mas não da composição.
Durante o tratamento, Allevi manteve a atividade criativa e, em fevereiro de 2024, voltou a se apresentar no Festival de Sanremo, onde protagonizou uma das noites com uma peça ao piano e um monólogo íntimo sobre a doença — uma performance que funcionou como um pequeno manifesto: a arte como protocolo de cura e testemunho.
Em Verissimo, o compositor recorda um episódio decisivo: «No dia 2 de junho de 2022 eu estava em Viena. Tinha febre há dias e uma dor de costas muito forte. Durante o concerto, não consegui me levantar para cumprimentar o público». Duas semanas depois, exames de sangue e uma radiografia revelaram algo mais grave: «Havia metástases ósseas por todo o corpo — no fêmur, no quadril, no crânio. O chão tremeu sob os meus pés», conta Allevi.
O relato sobre a quimioterapia não poupa detalhes: o aviso de que os cabelos cairiam, o dia em que acordou e, de fato, encontrou os fios no travesseiro. «Fiquei careca, mas não me assustei», diz ele — uma aceitação que revela a dimensão simbólica do processo: a perda do que define a imagem pública do artista, mas também uma libertação para uma nova gramática criativa.
Allevi descreve os momentos mais difíceis da internação, as sensações pós-quimioterapia e a reconfiguração da rotina familiar e profissional. Mesmo assim, a música permaneceu como guia. As composições surgiram durante a terapia e assumiram o papel de um roteiro oculto: documentam uma experiência coletiva de fragilidade e coragem.
Como analista cultural, é impossível não ver nessa narrativa um eco maior. A trajetória de Giovanni Allevi se insere no cenário de transformação em que artistas reinterpretam sua própria biografia pública para falar de saúde, representação e memória. A sua fala em Verissimo é, portanto, mais que um depoimento: é um convite a ler a performance humana como uma partitura onde cada silêncio e cada nota carregam sentido.
Ao final, fica a imagem de um músico que, diante do diagnóstico, não silenciou. Allevi reaparece como quem reescreve a partitura da vida — e nos lembra que, por trás de cada espetáculo, existe um roteiro íntimo que reflexiona o tempo em que vivemos.