How to Feed the Planet: o documentário que expõe a guerra por recursos alimentares

Documentário de Francesco De Augustinis revela a 'guerra por recursos alimentares' e questiona a moderna dieta mediterrânea. Pré-estreia em Roma, 11/04.

How to Feed the Planet: o documentário que expõe a guerra por recursos alimentares

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How to Feed the Planet: o documentário que expõe a guerra por recursos alimentares

Em uma pré-estreia que promete ser mais que uma sessão de cinema — uma chamada para repensar o cardápio do futuro — How to Feed the Planet chega a Roma com perguntas que reverberam como um espelho do nosso tempo: como alimentar 10 bilhões de pessoas em 2050? Aumentar simplesmente a produção é a resposta? Essas são as provocações centrais do novo documentário de Francesco De Augustinis, que estreia em 11 de abril, às 21h, no Nuovo Cinema Aquila, dentro do Festival delle Terre, promovido pelo Centro Internazionale Crocevia.

O filme encerra o ciclo independente ONE EARTH, iniciado em 2019, e consolida um roteiro investigativo sobre o papel das cadeias alimentares na geopolítica contemporânea. Após obras que expuseram a devastação da desflorestação tropical, a expansão insustentável da produção zootécnica e a falácia da aquicultura como solução para a demanda por proteína, De Augustinis busca agora uma resposta ética e prática à pergunta: como garantir alimento a todos sem destruir ecossistemas nem empobrecer comunidades?

Com uma curiosidade sofisticada que lembra um crítico de cinema diante de um clássico revisitado, o diretor faz uma viagem que é ao mesmo tempo cronológica e geográfica. A partir do Cilento, ele resgata as origens daquilo que conhecemos hoje como dieta mediterrânea — conceito sistematizado por Ancel Keys no pós-guerra — e revela como essa tradição foi se tornando, nas últimas décadas, um instrumento de marketing e influência política a serviço de interesses econômicos. A dieta mediterrânea, na narrativa do filme, perdeu parte de seu conteúdo original, sendo transformada para promover exportações e moldar normas europeias.

Não é, porém, um filme nostálgico. De Augustinis mapeia também a trajetória que leva do Cilento a Boston, mostrando como os princípios originais da dieta mediterrânea reencontram hoje ressonância em abordagens científicas contemporâneas — movimentos que procuram conciliar saúde humana e limites planetários. É aí que a questão central do documentário se torna global: não se trata apenas de comer melhor, mas de redesenhar a lógica produtiva que sustenta o sistema alimentar.

A escala do conflito investigado pelo filme surpreende. Em sequências que atravessam Ucrânia, Congo e Argentina, How to Feed the Planet evidencia como a disputa por terras, água e matérias-primas alimentares compõe um roteiro oculto da geopolítica moderna — uma verdadeira guerra por recursos alimentares às vezes invisível aos olhos do grande público, mas decisiva nas dinâmicas de poder e de fome.

Como analista cultural, vejo nesta obra um convite a ler o alimento como texto social: cada escolha de produção e consumo reflete e modela identidades, memórias e desigualdades. O documentário não oferece respostas fáceis: propõe, antes, um reframing — um reescrever do cenário — que nos obriga a perguntar por quem produz, quem lucra e quem paga o custo ecológico e humano dessas escolhas.

A pré-estreia em Roma é também um ato público. Ao colocá-lo em cartaz no Festival delle Terre, De Augustinis coloca o cinema como fórum de debate sobre agroecologia, direitos e sustentabilidade. Para quem pensa o entretenimento como espelho e ferramenta de transformação, esse filme chega com a urgência de quem nos pede para olhar além do prato.