I Grandi Minori: concerto inaugural da AMAMI revela a grandeza dos ‘menores’ no Museu Leonardo de Milão

Concerto 'Anachronia' da AMAMI em Milão reavalia compositores barrocos tidos como 'menores' na Sala delle Colonne do Museo Leonardo.

I Grandi Minori: concerto inaugural da AMAMI revela a grandeza dos ‘menores’ no Museu Leonardo de Milão

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

I Grandi Minori: concerto inaugural da AMAMI revela a grandeza dos ‘menores’ no Museu Leonardo de Milão

Milão, 14 de abril de 2026 — Na elegante Sala delle Colonne do Museo della Scienza e delle Tecnologie “Leonardo da Vinci”, realizou‑se o concerto inaugural intitulado Anachronia, organizado pela AMAMI — Accademia di Musica Antica di Milano. O recital marcou também a abertura do ciclo I Grandi Minori, a série que promete reconfigurar a percepção do repertório barroco frequentemente rotulado, com alguma injustiça, como “menor”.

Sob a direção do professor Gianni Iudica, o projeto da instituição para 2026 nasce como um gesto curatorial e cultural com dimensão pública e filantrópica: ao lado do apoio institucional do Comune di Milano e da Regione Lombardia, figuram patrocinadores de vulto como Fondazione Cariplo, Fondazione Banca del Monte di Lombardia, Gruppo Ospedaliero San Donato e Edison Energia, além de escritórios e profissionais parceiros. Esse ecossistema de apoio demonstra que a recuperação do passado musical é, também, um investimento coletivo na memória cultural.

O símbolo gráfico da AMAMI, extraído do frontispício de Harmonice Musices Odhecaton (Veneza, 1501) de Ottaviano Petrucci, funciona como um manifesto visual: a música antiga não é um arquivo seco, mas um repertório que continua a refletir, como um espelho, o presente. Nas palavras instituídas pela própria Academia, sua missão se estrutura em três eixos: a redescoberta e valorização do imenso patrimônio dos séculos XV a XVII; a articulação de temporadas com eventos culturais — colóquios, apresentações de estudos musicológicos, sessões nos “salotti di AMAMI” e bolsas de estudo —; e, por fim, demonstrar o vínculo entre a música antiga e a contemporânea, provando que o passado revive em formas novas.

O concerto foi executado pelo Barokkanerne — Norwegian Baroque Ensemble, sob a batuta de Jadran Duncumb. O programa explorou páginas de compositores como Georg Philipp Telemann, Antonio Lotti e Johann Friedrich Fasch, entre outros, que delinearam um fio narrativo sonoro capaz de desfazer a hierarquia tácita entre o que se costuma chamar de “grande” e “menor”. A proposta interpretativa do ensemble privilegiou clareza de textura, articulação estilística apurada e um diálogo performativo que trouxe à tona esquinas sonoras pouco frequentes nas temporadas convencionais.

Assistir a esse concerto foi como ler um roteiro oculto da sociedade: cada frase musical funcionou como um reframer da história — não apenas como rememoração, mas como reescritura. A execução permitiu perceber que muitas obras, relegadas por tradições críticas ou canônicas, guardam nuances dramáticas e arquiteturas tímbricas capazes de falar diretamente ao presente. Em outras palavras, a estética barroca, nas mãos de intérpretes atentos, transforma‑se em um ecossistema vivo.

Do ponto de vista institucional, a iniciativa da AMAMI reafirma uma tendência europeia de reapreciação do patrimônio sonoro, deslocando o foco das enaltecidas figuras universais para um panorama mais plural e inclusivo. Culturalmente, trata‑se de um gesto de coragem: reavaliar repertórios “menores” é interrogar o próprio critério de grandeza. E isso, numa cidade como Milão — cruzamento de memória e inovação — assume um papel de relevância simbólica.

Ao final, o público aplaudiu uma proposta que não se limitou a oferecer uma agradável noite de música antiga, mas convidou a uma reflexão mais ampla sobre como o passado musical continua a moldar identidades e sentidos. No roteiro cultural de 2026, I Grandi Minori promete ser um espelho para o nosso tempo, um ciclo em que o que foi marginalizado ressurge com a força de um novo olhar.

Chiara Lombardi para Espresso Italia