Il popolo di Ultimo: por que Niccolò Moriconi virou o grande fenômeno musical dos últimos 20 anos

O livro 'Il popolo di Ultimo' analisa por que Ultimo se tornou o grande fenômeno musical da Itália nas últimas duas décadas.

Il popolo di Ultimo: por que Niccolò Moriconi virou o grande fenômeno musical dos últimos 20 anos

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Il popolo di Ultimo: por que Niccolò Moriconi virou o grande fenômeno musical dos últimos 20 anos

Por Chiara Lombardi — Há livros que não apenas narram uma carreira: eles mapeiam um eco cultural. É esse olhar que guia Il popolo di Ultimo, o livro de Mattia Marzi publicado pela editora Gallucci na coleção Sounds Good, lançado a poucos dias do grande concerto de Ultimo em Roma, marcado para 4 de julho na área de Tor Vergata.

Marzi não escolheu o tema por acaso. Como explica, Ultimo representa “a coisa mais grande accaduta nella musica italiana negli ultimi venti anni” — não apenas pelos streams ou discos de ouro e platina, mas sobretudo pelo seguimento real e palpável: shows esgotados, multidões que cantam em uníssono e um sentimento coletivo que se traduz em 250 mil ingressos vendidos em pouquíssimas horas para o evento em Tor Vergata. Esse dado, para Marzi, é o indicador mais autêntico do alcance social de um artista.

Estamos diante de um fenômeno que o autor sintetiza como a Generazione Ultimo. Niccolò Moriconi acumula dezenas de milhões de visualizações no YouTube, mais de 2 milhões de ouvintes mensais no Spotify, redes sociais com mais de 5 milhões de seguidores e um público de estádios que já bateu recordes com sucessivos sold out. Curiosamente, o encanto ultrapassou a Itália: nomes como Russell Crowe declararam-se fãs, durante eventos como o Festival de Taormina.

O livro busca responder ao porquê desse apego, especialmente entre jovens de 15 a 30 anos. Marzi estabelece um paralelo provocador com Vasco: ambos, em suas épocas, usaram uma linguagem musical que dialoga com uma geração em crise — Vasco com o rock nos anos 1980; Ultimo com um cantautorato melódico de tradição baglioniana, num tempo dominado por rap e trap.

Enquanto o rap e a trap constroem narrativas de ostentação e triunfo, as canções de Ultimo se enraízam na fragilidade, nas inseguranças e nos medos. É uma semiótica do íntimo que oferece aos fãs uma espécie de espelho emocional — um roteiro afetivo capaz de transformar fraturas individuais em pertencimento coletivo. Nesse sentido, o autor vê o fenômeno tanto em termos musicais quanto sociais: não se trata apenas de hits, mas de um popolo que se reúne em torno de emoções compartilhadas.

Como observadora do zeitgeist, não posso deixar de ver nessa história o roteiro oculto da nossa época: artistas que viram líderes simbólicos porque articulam, com palavras simples e melodias acessíveis, aquilo que muitos jovens sentem e ainda não sabem expressar. Il popolo di Ultimo não é apenas a crônica de uma carreira; é o mapa de um tempo, a leitura de um fenômeno que traduz a cultura emocional de uma geração.

O livro de Marzi, portanto, cumpre uma função dupla: documenta o sucesso estrondoso de Ultimo e propõe uma interpretação crítica sobre como a música contemporânea se transforma em arena de pertença. Para quem observa a cultura pop como espelho do nosso tempo, é leitura obrigatória — um convite a escutar não só as canções, mas o público que as transforma em comunidade.