Itália em destaque no HKIFF50: mestres de Rossellini a Guadagnino invadem Hong Kong
Itália em destaque no HKIFF50: clássicos restaurados e estreias italianas marcam a 50ª edição do Hong Kong International Film Festival.
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Itália em destaque no HKIFF50: mestres de Rossellini a Guadagnino invadem Hong Kong
11 de março de 2026 — Por Chiara Lombardi
Na encruzilhada entre memória e futuro, o cinema volta a funcionar como um espelho do nosso tempo. A histórica 50ª edição do Hong Kong International Film Festival — o emblemático HKIFF50 — anuncia um programa que reafirma o poder do património e a urgência do contemporâneo. E, tal como numa cena cuidadosamente enquadrada, a Itália ocupa um papel de destaque: do restauro de clássicos ao olhar crítico dos cineastas de hoje.
Confirmado o partenariado com o Istituto Italiano di Cultura em Hong Kong, o público terá acesso tanto a obras restauradas quanto a estreias asiáticas. Entre os destaques, a exibição da versão restaurada de Anno Uno de Roberto Rossellini — título que já foi filme de abertura do festival em 1977 — oferece um reframe histórico: ver Rossellini hoje é reencontrar as raízes do cinema italiano e perceber como aquelas imagens continuam a repercutir no nosso roteiro coletivo.
O festival também trará o cinema contemporâneo italiano com nomes que funcionam como diferentes prismas do país: La Grazia de Paolo Sorrentino, Duse de Pietro Marcello, Sotto Le Nuvole de Gianfranco Rosi e After The Hunt de Luca Guadagnino. Cada título propõe uma viagem pelo sujeito e pela paisagem italiana — uma semiótica do viral cultural que liga passado e presente.
Na seção caleidoscópio, que privilegia narrativas menos convencionais, Giovanni Columbu chega com Balentes, um mergulho na Sardenha da era fascista, lembrando que o cinema pode também ser um arquivo afetivo e um campo de batalha pela memória.
O HKIFF50 inaugura em 1º de abril, no Hong Kong Cultural Centre, com We Are All Strangers de Anthony Chen — capítulo final da sua aclamada Growing Up Trilogy — estrelado por Yeo Yann Yann e Koh Jia Ler. O filme, que explora laços familiares além do sangue, marcou um momento histórico ao se tornar o primeiro filme de Singapura a competir na Berlinale.
O encerramento, a 12 de abril, ficará por conta de Cyclone de Philip Yung, que examina identidade trans e marginalização social, protagonizado por Liu Yuqiao, Edwynn Li e Jenny Suen. Será a primeira aparição do filme na Ásia após sua estreia mundial no International Film Festival Rotterdam.
Segundo o presidente da Hong Kong International Film Festival Society, Dr. Wilfred Wong Ying-Wai, esta edição comemora cinco décadas de missão cultural: “Cinquant'anni sono una pietra miliare...”, recordando que o Festival nunca deixou de promover a arte cinematográfica e que o tema deste jubileu é “Oltre i 50 anni: guardando al futuro”.
O panorama geral do festival é ambicioso: 215 filmes provenientes de 71 países e regiões, incluindo 11 estreias mundiais, quatro estreias internacionais e 49 estreias asiáticas. Um cenário de transformação onde o cinema internacional — e em particular o cinema italiano — reafirma seu poder de provocar reflexão e remodelar narrativas coletivas.
Como observadora do zeitgeist, vejo nesta seleção uma proposta clara: não se trata apenas de celebrar nomes consagrados, mas de desenhar, cena após cena, o futuro do imaginário cinematográfico. O HKIFF50 é, assim, um convite para ler o presente através de imagens que atravessam o tempo — um roteiro oculto da sociedade que nos pede atenção.


