Kandinsky em Roma: mais de 70 obras revelam como a cor virou emoção no Palazzo Bonaparte

Kandinsky chega ao Palazzo Bonaparte, em Roma: mais de 70 obras do Centre Pompidou contam a jornada do pai da abstração.

Kandinsky em Roma: mais de 70 obras revelam como a cor virou emoção no Palazzo Bonaparte

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Kandinsky em Roma: mais de 70 obras revelam como a cor virou emoção no Palazzo Bonaparte

Por Chiara Lombardi — Em um movimento que parece dialogar com o roteiro oculto da nossa sensibilidade coletiva, Kandinsky desembarca em Roma. A exposição abre no Palazzo Bonaparte em 15 de setembro e reúne mais de setenta obras do mestre do abstracionismo, muitas delas provenientes do Musée national d’art moderne – Centre Pompidou. A mostra, assinada por Arthemisia e curada por Angela Lampe, poderá ser visitada até 14 de fevereiro de 2027.

Distribuída em cinco seções, a mostra traça a trajetória que levou Vasily Kandinsky de pintor figurativo a pioneiro de um idioma pictórico que privilegia a sensação. Do período inicial, ainda preocupado com formas reconhecíveis, passamos pelos anos de Munique e pela experiência fundadora do Der Blaue Reiter, até a fase russa marcada pela revolução, a passagem pedagógica pelo Bauhaus e a última estação parisiense. Além das pinturas, o visitante encontra documentos, fotografias, objetos pessoais e materiais da Bibliothèque Kandinsk: fragmentos que ajudam a compor a biografia intelectual do artista.

O episódio narrativo que muda o rumo estético de Kandinsky tem a teatralidade de uma cena operística: a audição de Lohengrin, de Richard Wagner, no Teatro Bolshoi, em Moscou. Ali nasceu a ideia de uma arte que, como a música, opera sem um objeto direto — um espelho capaz de evocar emoções, memórias e imagens interiores. Essa intuição coloca a cor no centro do discurso plástico, não como adorno, mas como elemento capaz de modular afetos.

De 1911 a 1914, a parceria com Franz Marc e com Gabriele Münter cristaliza-se no projeto do Der Blaue Reiter, movimento que eleva a dimensão espiritual e emotiva da obra. Ainda que a linguagem ainda não seja inteiramente abstrata, já se percebem os passos decisivos rumo à dissolução do referente. A mostra também homenageia Münter — figura feminina essencial na trajetória de Kandinsky — com obras como Drachenkampf (Combat du dragon), de 1913, que ajudam a entender o intercâmbio estético e afetivo entre ambos.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Kandinsky retorna à Rússia, colaborando na reorganização cultural do país. Depois do conflito, sua carreira ganha novo impulso no Bauhaus, onde leciona e se consolida como um dos núcleos nervosos das vanguardas europeias. A perseguição nazista que levou ao fechamento da escola em 1933 empurra-o para Paris, cidade que o acolherá até sua morte, em 1944.

A produção desta exposição conta com o patrocínio da Embaixada da França na Itália, da Região Lazio e do Comune di Roma — Assessorato alla Cultura, além do apoio ao Centre Pompidou. Arthemisia organiza e produz, em colaboração com o centro parisiense, uma mostra que é ao mesmo tempo recorte histórico e reframe da nossa relação contemporânea com a imagem e a cor.

Mais do que uma retrospectiva, a mostra em Palazzo Bonaparte funciona como um dispositivo interpretativo: um convite a considerar o trabalho de Kandinsky como um espelho do nosso tempo — onde a arte deixa de representar para começar a provocar, a agitar memórias e a reordenar emoções. Em termos culturais, é uma oportunidade para reavaliar o que entendemos por abstração e por potência do signo cromático no século XX e além.

Informações práticas: abertura em 15/09/2026. Visitação até 14/02/2027. Produção Arthemisia em parceria com Centre Pompidou; curadoria de Angela Lampe. Uma mostra que traduz, em cores e formas, a ambição de transformar percepção em experiência.