Kasabian volta ao palco sonoro com 'Act III': Serge Pizzorno reconstrói a identidade da banda
Kasabian retorna com 'Act III': Serge Pizzorno reconstrói o som da banda entre eletrônica, psicodelia e guitarras clássicas.
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Kasabian volta ao palco sonoro com 'Act III': Serge Pizzorno reconstrói a identidade da banda
Por Chiara Lombardi — Em uma cena onde a recuperação de identidades musicais é quase um roteiro cinematográfico, Kasabian entrega com Act III um registro que soa, antes de tudo, como os próprios Kasabian. O nono álbum da banda de Leicester, marcado para lançamento em 4 de setembro, é a declaração de que o grupo encontrou novamente seu eixo: uma tensão produtiva entre eletrônica, psicodelia, rock e refrões pop que permanecem instantâneos e desafiadores.
Depois de um período de incertezas — e da saída pública de Tom Meighan após os acontecimentos de 2020 —, Serge Pizzorno, Chris Edwards, Ian Matthews e Tim Carter voltam a construir aquele som de atitude sutilmente arrogante que definiu a banda desde os anos 2000. Pizzorno, que já era a mente criativa por trás de grande parte do repertório, assume agora o microfone e a direção artística num movimento que poderia ter sido previsível, mas que precisava, sobretudo, ser legítimo.
Gravado entre o The Sergery e o Club Ralph e produzido por Pizzorno ao lado de Mark Ralph, Act III reúne dez faixas e três interlúdios, costurando referências ao catálogo anterior — do disco de estreia de 2004 a Empire, West Ryder Pauper Lunatic Asylum e 48:13. Pizzorno descreveu o álbum em termos cinematográficos: trata-se de um terceiro ato de uma narrativa iniciada há duas décadas, com 'Easter eggs' espalhados para fãs atentos. Essa autoconsciência sonora funciona como uma semiótica do próprio passado, um reframe nostálgico que não se limita a repetir fórmulas, mas as remixa.
Musicalmente, o disco é convincente. A mistura de batidas eletrônicas, camadas psicodélicas e guitarras com timbre retro retorna em formatos renovados. A faixa que abre após o primeiro interlúdio, Soulmate, é um destaque: refrão potente, produção que equilibra elementos eletrônicos e guitarras sombrias sem cair em excessos. Essa direção já havia sido vislumbrada em singles lançados anteriormente, como Hippie Sunshine e no vigoroso Great Pretender, ambos assinados por Pizzorno e co-produzidos por Ralph.
O efeito é o de um espelho cultural: o álbum olha para o legado dos Kasabian e reflete aquilo que a banda sempre fez melhor — criar trilhas sonoras para um cenário de transformação, para noites que oscilam entre festa e introspecção. Em tempos em que o pop muitas vezes perde a coragem, Act III recupera a aposta no risco melódico e na atitude, sem subestimar a necessidade de refrões memoráveis.
Se as duas últimas entregas após a saída do cantor não deixaram marcas tão profundas, este novo capítulo coloca a banda de volta em sua própria história, não como réplica, mas como continuação. É um disco que parece escrito com consciência histórica e com a vontade de provocar, de reavivar o que tornou os Kasabian uma presença relevante: uma mistura de arrogância saudável, senso de pista e vocação cinematográfica. Para quem acompanha, as referências estão lá — pequenas pistas que transformam a audição em uma caça ao tesouro emocional.
No conjunto, Act III não é apenas um retorno formal: é a reconstrução de uma identidade sonora que dialoga com o passado sem renegar o presente. E, enquanto o terceiro ato se desenrola, a banda reforça sua posição como um dos elos mais intrigantes entre a tradição do rock britânico e a experimentação eletrônica contemporânea.

