Kreator, Carcass, Exodus e Nails: anatomia de uma noite extrema no Alcatraz de Milão

Resumo da noite extrema em Milão: Kreator, Carcass, Exodus e Nails unem thrash, death e grindcore no Alcatraz.

Kreator, Carcass, Exodus e Nails: anatomia de uma noite extrema no Alcatraz de Milão

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Kreator, Carcass, Exodus e Nails: anatomia de uma noite extrema no Alcatraz de Milão

“Esta noite vamos nos machucar”, brincava um jovem com a camiseta dos Slayer enquanto abria caminho na pista do Alcatraz em Milão. A frase funcionava como um prefácio perfeito para um cartaz pensado para os exigentes do metal: Kreator, Carcass, Exodus e Nails reunidos numa única noite — uma espécie de roteiro concentrado que atravessa thrash, death e grindcore.

A abertura ficou por conta dos Nails, cujo grindcore curto e cortante estabeleceu desde os primeiros minutos o tom da sala. Sem concessões, o quarteto detonou faixas que não deixam espaço para meias-palavras: a experiência sonora era imediata, visceral e quase cinematográfica na sua economia de tempo — como um curta-metragem que não precisa de legendas para ser compreendido.

Em seguida, os Exodus subiram ao palco trazendo o peso da história do thrash. Nascidos na Bay Area no início dos anos 1980, foram parte do alicerce do gênero antes de ele se cristalizar como etiqueta com bandas como Anthrax, Megadeth e Metallica — curiosamente, foi de uma virada do destino que Kirk Hammett passou dos Exodus para o Metallica em 1983, substituindo Dave Mustaine. No Alcatraz, o set dos Exodus foi direto, bem calibrado e capaz de agradar tanto aos nostálgicos quanto àqueles que buscavam brutalidade direta e sem artifícios.

Às 20h15, o clima mudou: Carcass tomou conta do palco e da atenção de muitos presentes. Originários de Liverpool na metade dos anos 80, os Carcass ajudaram a codificar subgêneros — do goregrind às experimentações que desembocaram no melodic death representado por Heartwork (1993), um marco que ainda ressoa. Para muitos na plateia, eles eram a razão principal da vinda.

‘Unfit for Human Consumption’ abriu o set e, em seguida, ‘Buried Dreams’ e ‘Incarnated Solvent Abuse’ recolocaram a audiência na geografia sonora dos anos 90. O lado mais explícito do grupo também apareceu com clássicos de título provocador como ‘Genital Grinder’ e ‘Exhume to Consume’, contrapontos às peças mais técnicas e melódicas como ‘Corporal Jigsore Quandary’ e ‘Heartwork’. Jeff Walker, hoje em jeans e camisa branca — distante dos dreadlocks do passado — mostrou que a voz ainda mantém aquele corte abrasivo, apoiada por uma precisão instrumental quase cirúrgica. Era possível escutar nos rostos do público a mesma reverência de quem reconhece uma cena chave dentro do roteiro histórico do metal.

Quando os Kreator subiram, a atmosfera já vinha carregada de expectativa — e ainda assim, a banda conseguiu elevar a intensidade. “É bom estar de volta aqui na Itália, abram o wall of death”, declarou Mille Petrozza, 58 anos, franzino em presença mas monumental em comando. De origem italiana e líder de uma das cabeças do thrash europeu, Petrozza e seus músicos apresentaram um espetáculo que dialoga com décadas: da fúria crua de Pleasure to Kill a arranjos mais modernos das fases recentes.

A cenografia ajudou a contar essa história: três demônios com chifres no centro do palco e cabeças decapitadas nos microfones compunham um cenário que é quase um storyboard do imaginário extremo, ao mesmo tempo grotesco e cuidadosamente estilizado. A setlist navegou entre agressão e composição, provando que a banda não apenas revisita seus atos fundadores, mas também reescreve o texto no presente.

No total, a noite no Alcatraz funcionou como um espelho do que o metal extremo representa hoje: um gênero que preserva sua ferocidade sem perder a capacidade de se reinventar. Para além dos fãs e da violência controlada no pit, havia um sentido quase antropológico no encontro — como se estivéssemos assistindo ao desdobramento de um roteiro cultural que, por vezes, diz mais sobre nossa época do que muitas manchetes.

Chiara Lombardi — Espresso Italia