La casa di Ninetta: Lina Sastri traz lembranças de Nápoles em estreia na Rai3

La casa di Ninetta: Lina Sastri revive memórias de Nápoles em filme autobiográfico; estreia hoje às 21:20 na Rai3.

La casa di Ninetta: Lina Sastri traz lembranças de Nápoles em estreia na Rai3

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La casa di Ninetta: Lina Sastri traz lembranças de Nápoles em estreia na Rai3

Por Chiara Lombardi — Esta noite, às 21:20, a Rai3 exibe em primeira visão o filme íntimo e pungente de Lina Sastri, La casa di Ninetta. Mais do que uma narrativa familiar, trata-se de um pequeno espelho do nosso tempo: um roteiro que mistura memória, poesia e a geografia emocional de Nápoles — a cidade que funciona aqui como personagem, cenário e arquivo afetivo.

O filme acompanha Lucia, uma atriz de sucesso que retorna à sua cidade natal para visitar a mãe, acometida por Alzheimer. A mãe é cuidada com carinho por três mulheres que, no afeto e na rotina, já se tornaram mais parentes do que simples cuidadoras. Essa visita desencadeia uma série de flashbacks que remontam a episódios da vida de Ninetta: jovem mãe obrigada a criar Lucia e o irmão com um marido distante, e com sonhos que foram moldados pela necessidade e pela cidade.

Partindo de um relato em parte autobiográfico da própria Lina Sastri, o filme transita entre nostalgia e franqueza, utilizando diálogos diretos e uma direção que privilegia a oralidade e a memória. A atuação de Sastri é magnética — generosa e contida — e confirma sua habilidade tanto diante das câmeras quanto na autoria da matéria-prima. No elenco também figuram Maria Pia Calzone, Angela Pagano e Francesca Tizzano, todos contribuem para um tom coral que ecoa a complexidade das relações familiares.

Como observadora cultural, gosto de pensar em La casa di Ninetta como um reframe da realidade: não é apenas o relato de uma doença que rouba memórias, mas um inventário sentimental das ausências que nos definem. A forma como a cidade aparece — suas ruas, sons e pequenos rituais domésticos — funciona como uma semiótica do vivido, um mapa que liga acontecimentos privados a transformações socioculturais mais amplas. É cinema que se faz documento e poema, simultaneamente.

Em termos estéticos, o filme privilegia simplicidade e autenticidade. Os flashbacks não são exercícios formais gratuitos, mas dispositivos dramáticos para revelar como as escolhas do passado reverberam no presente. Nessa leitura, a presença do Alzheimer amplifica questões centrais: o que guardamos, o que esquecemos e o que transmitimos. A história de Ninetta espelha, em pequena escala, trajetórias migratórias, laços de gênero e as reconfigurações da vida doméstica na Nápoles contemporânea.

Assistir a La casa di Ninetta é, portanto, aceitar um convite: o de ler uma vida como se fosse um filme — com cortes, elipses e retomadas — e perceber que, por trás da intimidade, há sempre um roteiro oculto da sociedade. Para quem busca um cinema que dialogue com memória e lugar, a exibição de hoje na Rai3 promete ser um pequeno evento sensível e necessário.

Horário de exibição: hoje, às 21:20, na Rai3.