Celebrando Laura Orvieto: a literatura infantil em festa no Gabinetto Vieusseux

Exposição em Florença celebra 150 anos de Laura Orvieto e resgata a riqueza da literatura infantil com ilustrações e acervo histórico.

Celebrando Laura Orvieto: a literatura infantil em festa no Gabinetto Vieusseux

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Celebrando Laura Orvieto: a literatura infantil em festa no Gabinetto Vieusseux

Entrar na exposição do Gabinetto Vieusseux em Florença é como atravessar a porta de uma festa de aniversário literária: no centro, a homenageada; ao redor, amigos, colaboradores e toda uma tradição que reinventou o modo de contar para crianças. Para marcar os 150 anos do nascimento de Laura Orvieto (Milão, 7 de março de 1876 – Florença, 9 de maio de 1953), o Arquivo Contemporâneo “Alessandro Bonsanti” apresenta a mostra "Raccontare il mondo. Donne, letteratura e infanzia al Vieusseux. Laura Orvieto, le donne e la letteratura per l’infanzia", dedicada a autoras e autoras que moldaram a imaginação das novas gerações.

O recorte curatorial reafirma que a literatura infantil não é uma categoria menor, mas um campo literário com suas estratégias de sentido, imaginário e ética narrativa. Riccardo Nencini e Michele Rossi, presidente e diretor do Vieusseux, destacam que a mostra nasce tanto pelo vasto Fondo da família Orvieto conservado no Arquivo — onde foram recriadas três salas do apartamento que abrigava a biblioteca de Adolfo Orvieto — quanto pela memória viva do prêmio bienal de literatura infantil criado em 1953, que hoje leva o nome de Laura Orvieto e reafirma o compromisso da instituição com leitores jovens e adultos redescobridores da maravilha.

Nas palavras da curadora Elisa Martini, tudo converge para o verbo "contar", que aqui se converte em sinônimo de conhecer: as histórias são instrumentos para aprender a vida, suas alegrias, perigos e as múltiplas formas do mal, levando o leitor juvenil a escutar e ver o mundo. A co-curadora Benedetta Gallerini acrescenta que a potência dessas obras também passa pelo diálogo com as imagens: ilustrações que não apenas acompanham, mas compõem o texto. Entre os nomes lembrados estão Ezio Anichini — responsável pela maior parte das ilustrações dos livros de Laura Orvieto — e artistas como Duilio Cambellotti e Aleardo Terzi, que emprestaram cor e forma às narrativas de autoras coetâneas como Térésah.

Ao centro da exposição, reluzem títulos que fazem parte da memória coletiva: Storie della storia del mondo e Leo e Lia são postos lado a lado com obras de outras escritoras que, com suas fábulas, mitos e lições, ajudaram a "fazer os italianos" — no sentido mais cultural e formativo do termo. A proposta do Vieusseux é justamente resgatar esse universo muitas vezes soterrado pela historiografia literária oficial, inserindo-o no patrimônio institucional que já dialogava com a educação desde a publicação, em 1836, da Guida dell'educatore por Giovan Pietro Vieusseux.

Como crítica cultural, não posso deixar de ver nessa curadoria um espelho do nosso tempo: a exposição se apresenta como um reframe da realidade, onde a infância é tratada não como um estágio de menor complexidade, mas como um espaço de construção simbólica e ética. A mostra oferece ao público a chance de reavaliar a hierarquia entre o que consideramos "literatura séria" e o que chamamos de "literatura para crianças", lembrando que muitos dos grandes projetos civis e imaginários nascem justamente desses contos, ilustrações e pedagogias visuais.

Aberta de 26 de março a 24 de julho, a exposição do Gabinetto Vieusseux é convite para redescobrir o fantástico, a beleza e a responsabilidade de narrar. Para quem passa por Florença, é uma oportunidade de sentir como certas histórias — como as de Laura Orvieto — continuam a operar como mapas afetivos e morais, guiando leitores de todas as idades.

Chiara Lombardi
Espresso Italia — Reflexões sobre cultura pop, memória e o roteiro oculto da sociedade.