O vocabulário da violência: por que a linguagem cotidiana se torna cada vez mais belicosa
Como a guerra molda nosso vocabulário: Treccani e Marco Brando analisam a escalada de termos belicosos na linguagem cotidiana.
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O vocabulário da violência: por que a linguagem cotidiana se torna cada vez mais belicosa
Em um espelho do nosso tempo, a língua registra, com uma precisão inquietante, os contornos de um mundo em tensão. Segundo o Atlante das guerre e dei conflitti de março de 2026, vivemos em um cenário com trinta e duas guerras e vinte e duas áreas de crise — e, como observa Marco Brando em um ensaio publicado no site da Treccani, isso se reflete no vocabulário corrente.
Palavras que pareciam confinadas à memória da historiografia do século XX reaparecem nas manchetes e nas timelines: trincheira, primeira linha, ataque cirúrgico, operação militar especial, dissuasão, dano colateral, drone. Ao lado delas, emergem neologismos e termos de identificação política, como pro-Pal (quem apoia a causa política do povo palestino) e sumud (resiliência, resistência, esperança no futuro — um conjunto de valores culturais e políticos palestinos).
O vocabulário belicoso da língua italiana não surge por acaso: é moldado por eventos geopolíticos recentes — da agressão russa à Ucrânia ao persistente conflito em Israel e na Faixa de Gaza, agora ampliado pelo ataque ao Irã — e também pelo fluxo incessante de imagens, termos e prioridades que os media e as redes sociais selecionam e amplificam.
Essa seleção lexical não é neutra. Como um roteiro oculto da sociedade, a escolha de uma palavra pode operar como posicionamento ideológico: acusar um evento de genocídio transforma uma categoria técnico-jurídica em grito político, enquanto invocar a autodefesa pode legitimar, para alguns, ações que outros denunciam como eufemismos para represálias desproporcionais. A disputa semântica alimenta, assim, estados coletivos de ansiedade e polarização.
Há ainda um movimento semiótico curioso: termos que se desgarraram do sentido original reaparecem reescritos pelo presente. A palavra arma, por exemplo, fora usada metaforicamente durante a pandemia; hoje volta a apontar para instrumentos concretos de ofensa — e até para mecanismos simbólicos: “A informação é uma arma contra Putin”, lemos nos jornais.