A 50 anos de Sebastiane: chega 'Loving Sebastiane', documentário que revisita Derek Jarman
Documentário 'Loving Sebastiane' revisita 'Sebastiane' de Derek Jarman aos 50 anos, com entrevistas inéditas e reunião do elenco.
RESUMO ✦
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A 50 anos de Sebastiane: chega 'Loving Sebastiane', documentário que revisita Derek Jarman
Em 13 de agosto de 1976, numa sexta-feira que pouco lembrava conformismo, o Festival di Locarno assistiu ao debut de Sebastiane, o primeiro longa-metragem de Derek Jarman. Filmado numa praia remota da Sardenha — a icônica Cala Domestica —, o filme se apresentava como uma escolha radical: todo em latim, embalado pelas paisagens sonoras eletrônicas de Brian Eno, e dotado de uma força visual que cortava como um refrão que não se cala. A representação do martírio de São Sebastião transformou-se num retrato catártico, jubiloso e libertador da homossexualidade, devolvendo dignidade e voz aos afetos queer num período de censura rígida.
Meio século depois daquela primeira que chocou e encantou, surge o documentário Loving Sebastiane, um projeto italo-britânico escrito e dirigido por Sergio Naitza, produzido por Karel em coprodução com RSH Films. O filme-investigação propõe um reexame afetivo e crítico de Sebastiane, acompanhando memórias, rastros visuais e os ecos culturais que a obra de Derek Jarman deixou como um manifesto político e poético contra a intolerância.
Se em Locarno as reações foram inflamadas diante das imagens explícitas que desafiavam moralismos, a trajetória do filme não terminou ali: em 28 de outubro de 1976, Sebastiane estreou em Londres, convertendo-se num emblema militante do cinema daqueles anos. Em preparação para o 50º aniversário, a produção de Loving Sebastiane organiza uma reunião do elenco e da equipe, marcada para 28 de outubro no Cinema Gate, em London, resgatando tanto a celebração quanto o debate que a obra sempre suscitou.
“Será a ocasião para recordar a importância e o impacto dirompente que o filme produziu na história do cinema e na cena cultural”, afirma Sergio Naitza. Os primeiros dias de filmagem já cruzaram Reino Unido e Itália — de Londres ao País de Gales, retornando a Cala Domestica — para mapear o encontro improvável entre uma pequena comunidade agro-pastoral sarda e a troupe da contracultura londrina dos anos 1970. Esse encontro, narrado no documentário, funciona como um espelho do nosso tempo: o roteiro oculto da sociedade onde imposições culturais e encontros transgressores se confrontam e se enriquecem.
Financiado com o apoio do Fundo Sviluppo da Região da Sardenha e das instituições Fondazione Sardegna Film Commission e Società Umanitaria-Cineteca Sarda, Loving Sebastiane inclui materiais inéditos — entre eles uma entrevista rara com o grande Lindsay Kemp, protagonista do prólogo de Sebastiane, realizada por Sergio Naitza poucos meses antes da morte do mimo, dançarino e coreógrafo britânico. As filmagens permitiram reencontros emocionantes: o produtor Howard Malin, o artista Andrew Logan — figura emblemática da cena britânica e amigo pessoal de Derek Jarman — e o protagonista Leonardo Treviglio, agora entrevistado no Salento, onde vive atualmente.
Mais do que um making of, Loving Sebastiane se apresenta como uma reflexão sobre conquistas civis do século XX que, no século XXI, enfrentam novas investidas de intolerância e barreiras políticas, religiosas e sociais. O documentário funciona como um reframing da memória cultural: ao revisitar imagens e vozes, oferece um rearmamento simbólico contra o apagamento e uma celebração da liberdade sensorial e política que Sebastiane encarnou.
Como observadora cultural, vejo em Sebastiane e em seu novo retrato documental um verdadeiro eco cultural — a obra é um espelho do nosso tempo, mostrando que o cinema é também uma arena de memória e de combate. Em sua forma e dissonância, tanto o original quanto o documentário nos convidam a ler o passado como um mapa para entender o presente e para resistir às narrativas que querem nos silenciar.
Derek Jarman (1942–1994) permanece, através desta avalanche de imagens e testemunhos, uma presença que continua a interrogar o futuro do cinema como ato de liberdade.