Madame lança 'Disincanto' e relata dois anos de vazio: “Vi gente que vinha só para comer do meu prato”
Madame lança 'Disincanto', álbum sobre dois anos de vazio, indústria musical e reconstrução pessoal. 14 faixas entre dor e redenção.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Madame lança 'Disincanto' e relata dois anos de vazio: “Vi gente que vinha só para comer do meu prato”
Por Chiara Lombardi — Em um discurso que parece uma cena de filme independente, Madame reaparece com Disincanto, seu terceiro álbum, um projeto autoral que transforma frustração e cura em música. Aos 24 anos, a artista apresenta 14 faixas em que a perda do brilho — ou o desfecho do encanto — vira matéria-prima: um espelho do nosso tempo onde se encena o encontro entre expectativas e realidade.
A capa do disco é toda branca, com a etiqueta do preço sobre o título: uma imagem tão direta quanto a metáfora do supermercado, que a cantora até brinca comparar ao formaggio. Essa escolha visual compõe a campanha que questiona «qual é o preço de estar bem», «quanto custa mudar» e «o que nos pedem quando nos mostramos» — perguntas que atravessam o roteiro oculto da indústria e da intimidade.
O álbum não é delicado em sua autoanálise. Em faixas como "Come stai?" e "Mai più", Madame aponta o dedo para o lado mais sombrio do entretenimento: personagens oportunistas, pressões de rádios, hits fabricados em série. Relata experiências pessoais e observações de bastidores, inclusive episódios em que se aproximaram dela apenas para “comer do meu prato” — imagem poderosa que sintetiza a exploração e o uso instrumental nas relações profissionais.
O maior desencanto, diz a artista, foi o amor esperado como dívida: a constatação de que ninguém é obrigado a te amar só porque você existe enquanto adulto. É uma ideia que reverbera como um motivo recorrente no álbum: o desencanto não tem idade, surge desde a criança que descobre que Papai Noel não existe até os despontares das etapas mais maduras da vida.
Mas o desencanto tem dupla face: destrói e reconstrói. Para Madame, o processo foi isso — uma derrocada que abriu espaço para reescrever regras e tentar viver segundo um próprio código. Em "Come stai?" há até a imagem de uma jovem salva por sua própria persona artística: Francesca e Madame, a contradição entre quem se sente menor e quem se sente maior que a própria medida. Essa tensão, explica, gera choque e perda de identidade; o trabalho do disco é tentar encontrar o ponto de encontro entre ego e verdade.
O relato também é direto sobre saúde mental: hospitalizações e uso de psicofármacos aparecem sem eufemismos. Ela admite ter passado «dois anos de vazio», período em que escrevia e gravava melodias no telefone sem conseguir transformar aquilo em sentido. O álbum nasce, então, como visão lúcida desse sofrimento — um exorcismo em forma de canção, a montagem de um sentido que permita seguir.
Musicalmente, Disincanto reafirma a singularidade da artista: escrita profunda, sonoridade contemporânea e um olhar crítico sobre os mecanismos do sucesso. O disco chega às plataformas na sexta-feira, 17 de abril, e o verão traz um tour que começa em 3 de julho — sequência de cenas que, no grande filme da carreira, prometem testar a nova narrativa que Madame escreve para si mesma.
Ao invés de fofocas, o que se percebe é o trabalho de quem usa a arte como espelho e lâmina: refletir, cortar e curar. O resultado é um álbum que não busca oferecer respostas fáceis, mas que nos convida a assistir à reconstrução de alguém que não se satisfaz com o brilho de superfície — prefere a profundidade da verdade.