O enigma da História da Arte: manuais clássicos, novas narrativas e o vazio da linguagem filosófica

Manuais clássicos vs. novos ensaios: como Argan, Montanari e Sgarbi redesenham a História da Arte e o papel da linguagem filosófica.

O enigma da História da Arte: manuais clássicos, novas narrativas e o vazio da linguagem filosófica

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O enigma da História da Arte: manuais clássicos, novas narrativas e o vazio da linguagem filosófica

Por Chiara Lombardi — Em um tempo em que o passado frequentemente serve como moldura para as disputas do presente, a História da Arte parece viver uma tensão entre conservaçã o canônica e experimentações pedagógicas. O que se lê nas prateleiras recentes é, antes de tudo, um diálogo inquieto entre os velhos manuais que marcaram gerações e os novos ensaios que tentam reinserir a arte no fluxo social e político contemporâneo.

Recordemos a máxima de Giulio Carlo Argan: “Não pode haver distacco tra lo spazio della vita, o dell'artista che dipinge, e lo spazio del quadro.” Essa afirmação, presente na sua Storia dell’arte italiana (1970/89), ressoa hoje como um lembrete da intensidade narrativa que o ensino da arte já ostentou — uma prosa que se aproximava do romance histórico e do tratado estético. Aqueles textos, outrora destinados ao ensino médio, tornaram-se referência até nos cursos universitários, ao lado de manualistas como Carlo Bertelli e Giuliano Briganti (1918-1992).

Contra a corrente da didática experimental, chegam propostas como Artisti Città Paesaggi (Einaudi Scuola, 2026), assinado por Tomaso Montanari e Salvatore Settis, enquanto editoras como a Mondadori Education tentam reposicionar o manual como eixo curricular. Ao mesmo tempo, o relançamento do Argan em forma de ensaio, curado por Vincenzo Trione (Il Saggiatore, 2026), reconcilia memória e crítica: Trione, professor de História da Arte na IULM de Milão, aparece tanto como organizador do legado arganiano quanto como interlocutor da contemporaneidade — seu percurso editorial inclui curadorias e textos em diálogo com figuras como Umberto Eco (Sull'arte. Scritti dal 1955 al 2016, La nave di Teseo, 2025).

Não é casual que autores como Montanari se movam entre o manual e o panfleto cultural: sua recente hipótese — La continuità del male (Feltrinelli, 2026) — sugere que parcela da direita italiana mantém traços fascistas, mesclando historiografia e denúncia política. Já Contro le mostre (Montanari e Trione, Einaudi, 2017) é leitura obrigatória para quem pensa a instituição expositiva como arena ideológica. O amor pela arte, percebemos, não é imunizado contra a ideologia; ao contrário, torna-se instrumento de narrativa pública.

Falta, porém, algo que a saggistica filosófica ainda preserva: um certo «mistério» do linguagem sem tempo da filosofia. Enquanto os ensaios dominam as prateleiras contemporâneas, os manuais parecem perder aquele timbre quase litúrgico que transformava a história em catálogo de significados e afetos. Nesse sentido, a obra e o retorno de vozes antagônicas interferem no cânone: Vittorio Sgarbi, depois de ausências e retornos televisivos, traz ao público obras como Il cielo più vicino. La montagna nell’arte (La nave di Teseo, 2025), enquanto segue com sua ampla produção sobre o Novecento, Barroco e outros ciclos. Do lado crítico, nomes como Achille Bonito Oliva reafirmam trajetórias — veja-se Transavanguardia. Scritti 1979-1992 (2023) — lembrando que movimentos e manifestos continuam a moldar interpretações.

Se encararmos essa cena como um filme em que o roteiro oculto da sociedade se revela nos diálogos entre autores, percebemos que a História da Arte está em processo de reframe: não se trata apenas de atualizar conteúdos, mas de reencontrar a linguagem que faça a arte falar ao presente sem perder a ressonância do passado. A pergunta que fica, então, é menos técnica e mais semiótica: que tipo de voz queremos que os manuais tenham — a do arquivista, do pregador ou do narrador que traduz em imagens os anseios do nosso tempo?

Em suma, a disputa editorial atual — entre relançamentos arganianos, intervenções de Montanari e Settis, obras de Sgarbi e as reflexões críticas de Trione e Bonito Oliva — revela um campo que se reconstrói. A tarefa dos leitores e docentes é perceber onde reside o verdadeiro valor: na fidelidade a um cânone sagrado ou na capacidade de reinventar o discurso, mantendo, contudo, o misterioso acento filosófico que confere à arte seu poder eterno.