Manuscrito medieval na Biblioteca Nacional de Roma revela o mais antigo poema em inglês antigo

Manuscrito do século IX na Biblioteca Nacional de Roma revela o Hino de Caedmon, o mais antigo poema em inglês antigo; descoberta feita por pesquisadores digitais.

Manuscrito medieval na Biblioteca Nacional de Roma revela o mais antigo poema em inglês antigo

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Manuscrito medieval na Biblioteca Nacional de Roma revela o mais antigo poema em inglês antigo

Por Chiara Lombardi — 01/05/2026

Uma descoberta que funciona como um espelho do nosso tempo: na Biblioteca Nazionale Centrale di Roma foi identificado um manuscrito datável aos primeiros anos do século IX que contém o que é considerado o mais antigo poema conhecido em inglês antigo. O achado, localizado graças à pesquisa digital, traz ao centro do palco o Hino de Caedmon, poema devocional que louva Deus como criador do mundo e que remonta a cerca de 800–830 d.C.

O documento agora identificado representa a terceira cópia mais antiga do Hino de Caedmon, mas distingue‑se por um detalhe decisivo para estudiosos da filologia: a versão em inglês antigo aparece incorporada no corpo do texto latino principal, e não como uma anexação marginal ou uma adição tardia. Esse fator altera a leitura do manuscrito como artefato cultural e oferece um novo enquadramento sobre a circulação linguística e litúrgica na Europa altomedieval — o roteiro oculto da história textual que a digitalização ajudou a revelar.

A identificação coube aos pesquisadores do Trinity College Dublin, Elisabetta Magnanti e Mark Faulkner, especialistas em manuscritos medievais. Magnanti recorda as pistas contraditórias que a levaram até Roma: referências à Historia de Beda indicavam tanto a existência como a perda do material. "Quando a biblioteca confirmou a presença do códice e o disponibilizou digitalizado, ficamos extremamente entusiasmados ao descobrir que continha a versão em inglês antigo do Hino de Caedmon incorporada no texto latino", disse ela, destacando que a digitalização tornou possível o reconhecimento e a difusão desse tesouro.

Segundo os pesquisadores, o manuscrito foi executado na Abadia de Nonantola entre 800 e 830 e tem uma trajetória tumultuada até chegar à coleção romana. A peça foi subtraída da igreja de San Bernardo alle Terme em Roma, preservada durante as guerras napoleônicas e passou por diversas coleções particulares antes de integrar o acervo da Biblioteca Nacional. Hoje, estima‑se que existam cerca de 160 testemunhos do texto, mas a singularidade desta cópia reside na sua integração textual e contexto de transmissão.

Faulkner sublinha a importância filológica do achado: a nova cópia altomedieval tem implicações substanciais para a compreensão do inglês antigo e do prestígio que a língua possuía em ambientes eruditos. A presença do poema em inglês dentro de um manuscrito latino oferece pistas sobre como comunidades monásticas e leigas interagiam com línguas vernaculares e latim — uma semiótica do viral do passado, que ressoa com as atuais discussões sobre identidade linguística e memória cultural.

Para além do valor acadêmico, há aqui uma narrativa sobre o poder das bibliotecas e das coleções digitais: a digitalização não é apenas conservação; é uma luminária que revela roteiros ocultos e possibilita que investigadores de diferentes latitudes leiam, comparem e ressignifiquem arquivos milenares. A Biblioteca Nazionale Centrale de Roma anunciou que prossegue com um amplo programa de digitalização, reafirmando seu papel como guardiã e mediadora do patrimônio cultural.

Esta descoberta convida o leitor a pensar no texto como testemunha viva: um humilde poema atribuído a um trabalhador de Whitby, no North Yorkshire, atravessou séculos e fronteiras para nos falar. Em sua aparente simplicidade, o Hino de Caedmon é um eco cultural que ilumina não apenas o passado anglo‑saxão, mas também as maneiras como guardamos, traduzimos e valorizamos as vozes de outrora.