Marcello Veneziani provoca o debate: 'Nietzsche e Marx si davano la mano' — diagnóstico da modernidade (Marsilio, 2026)
Veneziani reconstrói o encontro simbólico entre Nietzsche e Marx, diagnosticando a dicotomia que molda a modernidade. Livro Marsilio, 2026.
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Marcello Veneziani provoca o debate: 'Nietzsche e Marx si davano la mano' — diagnóstico da modernidade (Marsilio, 2026)
03 de agosto de 2026 — Por Chiara Lombardi
Em seu novo ensaio, Marcello Veneziani investiga a tensão que atravessa a modernidade ao colocar face a face dois titãs do pensamento: Karl Marx (Treviri, 1818 – Londres, 1883) e Friedrich Nietzsche (Röcken, 1844 – Weimar, 1900). O livro Nietzsche e Marx si davano la mano. Vita intrecci e pensiero dei due profeti che sconvolsero il mondo (Marsilio, 2026) se apresenta como uma leitura-diagnóstico de uma dicotomia mitológica que ainda molda o nosso presente.
Veneziani abre a obra com um gesto quase surreal: «Desse encontro entre Marx e Nietzsche não restaram vestígios em parte alguma e este é a única testemunha que o conta». Esse começo funciona como um prólogo simbólico — mais do que uma pesquisa documental, é um convite a observar o encontro inexistente como espelho do nosso tempo, um roteiro oculto da sociedade que insiste em produzir opostos como necessidade narrativa.
O autor, com olhar que flerta ora com a psicanálise ora com uma divisão quase popperiana entre idealismo e pragmatismo, mapeia habitats e horizontes distintos: o ambiente natural, o sol das caminhadas, os lagos e as montanhas como território preferido de Nietzsche; e a cidade industrial, as fábricas, as massas e os subúrbios como o terreno de eleição de Marx. Torino aparece, aliás, como a cidade que marcou o trágico epílogo nietzschiano — enquanto Marx sonhava, entre Bonn, Londres, Paris e Bruxelas, com um horizonte que tinha Manchester e Nova York como miragens operárias.
Veneziani reconstrói também a cronologia essencial das obras: o Manifesto do Partido Comunista (1848) e o primeiro volume de O Capital (1867) para Marx; e, para Nietzsche, A Nascita della Tragedia (1872), La gaia scienza (1882), Così parlò Zarathustra (1883–1885) e L'Anticristo (escrito em 1888 e publicado postumamente em 1895).
Mas o livro de Veneziani é um mosaico cultural: os dois pensadores não estão isolados. Movem-se com eles fantasmas e contemporâneos — Tolstói e Dostoiévski; Freud e Jung; antecedentes como Hegel, Feuerbach e Schopenhauer; leituras posteriores de Lukács e Heidegger. Nomes como Kierkegaard, Herbert Marcuse, James Hillman, Rudolf Steiner e Georges Bataille surgem como respostas alternativas ao mesmo processo de secularização. Esse contexto compartilhado, argumenta o autor, aproxima mais do que separa os dois «profetas».
Ao reler a influência atravessada por gerações, Veneziani propõe que a dicotomia entre os dois polos — o social e o existencial, o coletivo e o trágico do indivíduo — é menos um mapa rígido do que um palco onde se encenam as grandes narrativas do século XIX e XX. É um reframe da realidade: o que parecia irreconciliável no pós-guerra torna-se, nas mãos do autor, matéria de interpretação cultural e clínica.
Como analista cultural, interessa-me que este debate não seja entendido como mera arqueologia intelectual. É, sobretudo, um espelho do nosso tempo: as polarizações políticas e as ansiedades existenciais contemporâneas repetem o roteiro desses dois imaginários. O livro de Veneziani funciona, portanto, como um convite à leitura crítica — não para escolher um lado, mas para entender por que ainda projetamos em Marx e em Nietzsche o roteiro oculto das nossas próprias inquietações.
Em suma, Nietzsche e Marx si davano la mano é leitura recomendada para quem busca ver além das biografias e acessar o cenário de transformação que formou os antagonismos no centro do debate moderno.