Marco Masini sobre Sanremo com Fedez: “O abismo veio no auge — e venceu-se com arte”

Marco Masini reflete sobre o sucesso em Sanremo com Fedez, o álbum Perfetto imperfetto e o abismo encontrado no auge da carreira.

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Marco Masini sobre Sanremo com Fedez: “O abismo veio no auge — e venceu-se com arte”

Por Chiara Lombardi — Em uma conversa que parece um plano de cena onde passado e presente se refletem, Marco Masini conta as apostas, os aprendizados e a renovação após o surpreendente desempenho em Sanremo. O cantor toscano, que lançou recentemente o álbum Perfetto imperfetto, descreve com franqueza como a experiência ao lado de Fedez trouxe não só visibilidade, mas um verdadeiro reframe pessoal e artístico.

Em dueto com Fedez, a canção Male necessario foi apontada entre as favoritas — e, apesar de não ter subido ao topo, conquistou o público e a crítica: a faixa ficou entre os cinco primeiros colocados e venceu o prêmio de melhor letra. Mas Masini recusa qualquer tom de decepção: “Estar no top 5 e ter ganho o prêmio de melhor texto nos parece um sucesso clamoroso. É o intercâmbio de energia entre eu e Fedez que nos deixou felizes”, lembra, com a modulação de quem observa um eco cultural que confirma conexão entre gerações.

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Sobre a relação artística com Fedez, Masini traça um paralelo que funciona como espelho do seu próprio caminho: “Frequentemente vejo nele um Masini jovem — mais superficial, movido pelo ímpeto de quebrar e mudar o mundo. Talvez ele veja em mim o que eu poderia ser em 30 anos: alguém que não mudou o mundo, mas tentou manter coerência.” Essa leitura não é só uma observação afetiva; é a análise de dois tempos distintos do mesmo roteiro.

O veterano destaca o que aprendeu com o rapper: comunicação rápida e síntese. “Ele é muito mais veloz em capturar o instante. Em estúdio, apreciei sua capacidade de síntese e pragmatismo. Nós, cantautores, precisamos de cinco minutos e quarenta para dizer algo; os rappers traduzem conceitos em quinze segundos.” A admiração mútua evidencia como a cena musical se reescreve quando gerações dialogam.

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Sobre autoria e protagonismo em Male necessario, Masini é claro: “Os ritornellos nascem da strofa. Sem ele, minha voz não faria sentido; sem minha voz, as barras dele perderiam razão. Quando algo é construído a dois, é de ambos: 50% de mérito, 50% de culpa.” É a ideia de autoria como coautoria, um plano compartilhado que evita a mitologia do solista.

Questionado se esse Sanremo representou uma revanche, o cantor responde com a elegância de quem desnuda a própria trajetória: “Nunca tive revanches. Não servem. O que nos encheu foi aproveitar, chegar a uma nova geração.” E, ao falar do núcleo do texto — tocar o fundo e renascer —, Masini relê sua biografia artística: “Quando passa-se pelo sofrimento mais profundo, sai-se consciente que certos erros não se repetem. Viver sem choques pode nos estragar. Foi o que aconteceu quando subi de zero para dois milhões de cópias em um ano: perdi o foco pensando em casas, carros e mulheres. Depois fui ao abismo. Ali reencontrei o essencial.”

Sobre as lendas de azar que o envolveram — comparadas por muitos ao caso de Mia Martini — Masini aponta para a responsabilidade pessoal: “O resto do mundo faz o que quiser, mas só podemos corrigir a nós mesmos. Esses episódios me devolveram a fome do começo.”

Ao final, a entrevista soa como uma cena emblemática do presente: uma figura clássica da canção italiana que, em diálogo com as linguagens do agora, reencontra o seu timbre e reescreve o próprio roteiro. Porque, no palco do zeitgeist, o fracasso e o sucesso se recompõem como cenas de um mesmo filme — e a verdadeira vitória é sair delas mais consciente.

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