Mel Ramos em Veneza: o pop extremo e vibrante no Palazzo Bragadin Carabba
Exposição de Mel Ramos em Veneza: pinturas hiper-cromáticas e pop extremo no Palazzo Bragadin Carabba até 22/11/2026.
RESUMO ✦
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Mel Ramos em Veneza: o pop extremo e vibrante no Palazzo Bragadin Carabba
Por Chiara Lombardi — 06/05/2026
Uma surpresa divertida espera quem sobe ao primeiro andar do Palazzo Bragadin Carabba, no sestiere de Cannaregio, a poucos passos da igreja de San Giovanni e Paolo. Em plena movimentação da Biennale di Venezia, a mostra de Mel Ramos revela uma paisagem visual hiper-cromática: pinturas e instalações que levam ao extremo o pop ilustrativo, feminino e reluzente.
O conjunto exposto é uma verdadeira selva de ícones — sobretudo femininos — onde estrelas de histórias em quadrinhos, pin-ups e voluptuosas mulheres dos anos 40 e 50 coexistem em um cocktail estético que mistura nostalgia retrô (lembre-se do universo sensorial de La misteriosa fiamma della Regina Loana, de Umberto Eco) com um apetite por epifanias imaginativas. Há aqui um sinal claro do retorno pós-moderno às raízes do moderno, como se o cânone clássico reaparecesse convertendo a superfície pop em algo quase lírico perante a vacuidade de muitas linguagens figurativas contemporâneas.
Entre referências óbvias e reinvenções iconográficas, Ramos reconfigura mitos: avultam ecos da Afrodite marítima acompanhada de golfinho e da Moira — a Parca com fuso e a lã do destino — sublinhando a capacidade do pop de assimilar genealogias estéticas e transformá-las em um vocabulário próprio. Essa amplitude figuracional faz do trabalho de Ramos algo não apenas representativo, mas prescritivo: imagens que impõem a sua presença e criam uma semântica autógena, social e psíquica.
Há, também, uma dimensão jocosa naquilo que o texto original chama de uma certa "porno-logia": não é sadiana, mas lúdica, fresca e quase beniana no modo como confunde orgânico e inorgânico — corpo, produto e objeto se brincam mutuamente. É uma espécie de "american beauty" reciclada, já vista, porém sempre capaz de divertir e convencer. A energia é contagiante; o carisma das obras se sustenta pelo sentido do luxo, entendido aqui como luminosidade difusa, vital e solar, de forte carga carnal.
A exposição, curada por Elisa Carollo e produzida por Ronald Harrar em colaboração com o arquivo do artista, permanece em cartaz até 22 de novembro de 2026. Para o espectador contemporâneo, essa mostra funciona como um espelho do nosso tempo: o pop como reframe da realidade, a semiótica do viral transformada em pintura. Não é mero entretenimento — é um roteiro oculto que nos convida a ler a sociedade pela superfície brilhante das imagens.
Endereço: Palazzo Bragadin Carabba — Sestiere Cannaregio, Veneza. Mais informações sobre bilhetes e horários podem ser obtidas junto à organização da mostra.