Memetic Trump: como o soft power virou propaganda 4.0 nos reels do Instagram

Como o 'Memetic Trump' revela o novo **soft power**: propaganda 4.0 em reels que transforma humor em normalização política.

Memetic Trump: como o soft power virou propaganda 4.0 nos reels do Instagram

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Memetic Trump: como o soft power virou propaganda 4.0 nos reels do Instagram

Memetic Trump não é apenas um rótulo; é um fenómeno cultural que nos diz algo profundo sobre como o poder simbólico circula hoje. À primeira vista, parece apenas comédia: um reel viral — «Jo soy vuestro nuevo presidento, Donaldo Trumpo» — publicado no rastro do rapto do presidente venezuelano Maduro, que fez milhares rirem, partilharem e passarem adiante. Mas esse riso é relógio: marca o tempo de uma transformação política-cultural onde o soft power se move em formato vertical, com som, legenda e um gesto de dança.

Podemos rir porque tudo nos foi tirado; podemos rir para esquecer a inflação, a gasolina cara, a insegurança. Ainda assim, há um momento em que a gargalhada deixa de ser catártica e se torna anestésica: o Memetic Trump — isto é, a utilização do humor e do meme para naturalizar o impensável — funciona, muitas vezes, como uma máquina que torna aceitável o inaceitável. A viralidade do conteúdo não é neutra. É, como diria a semiótica do nosso tempo, um espelho do que aceitámos coletivamente como suporte de sentido.

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No novo ecossistema de comunicação, a propaganda não chega mais em pancartes ou longos discursos; ela aparece condensada em 15 a 60 segundos, com um ritmo que puxa pela emoção e não pela reflexão. Este é o pilar da chamada propaganda 4.0: horizontal, cool e divertente. A mensagem é simplificada ao extremo e apresentada como entretenimento. Assim, um líder controverso transforma-se em personagem de sketch, um arquétipo confortável que permite ao público reagir sem esforço crítico.

O fenômeno encontra paralelos na caricatura de outros políticos: o Biden robótico, por exemplo, foi reduzido a um meme que evocava fragilidade e esquecimento — uma shorthand audiovisual que dispensava explicações complexas sobre políticas públicas. Trump, ao contrário, foi reciclado em imagem de vitalidade e presença. Entre os dois, o soft power não é apenas projeção de força tradicional, mas manipulação de afeto e estilo: a presença de tela, o carisma que se traduz em clip, o gesto que viraliza.

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Chamo isto de “propaganda para macacos” não em sentido literário, mas como metáfora do modo em que a comunicação contemporânea se dirige ao nosso cérebro emocional primário. O mundo contemporâneo transformou-se num zoológico mediático — um zoo global onde o multiculturalismo muitas vezes vira espetáculo e a complexidade histórica torna-se figurinha colecionável. A reação imediata, o scroll e o like, substituem a espera e a reflexão. O público é chamado a reagir como animal afetivo: rir, chorar, partilhar. Essa reação substitui o debate.

Há, assim, um roteiro oculto da sociedade digital: simplificar para viralizar; viralizar para normalizar. O conteúdo irreverente sobre um gesto de poder — mesmo um gesto extremo — pode funcionar como anestésico social. Alguns dirão que a risada é resistência; eu respondo que também pode ser capitulação. O que nos falta, frequentemente, é o músculo da ponderação.

Como observadora cultural, vejo nesse movimento algo mais que entretenimento: um reframe da realidade. A capacidade dos reels e dos memes de redesenhar figuras públicas é parte do soft power contemporâneo. Não é apenas quem tem o exército ou a economia; é quem sabe moldar afetos, ritmos e imagens. E, no mosaico audiovisual atual, essa moldagem aponta para uma nova geopolítica das emoções — um campo onde o poder simbólico se disputa em loops de 30 segundos e filtros de Instagram.

No fim, o caso do Memetic Trump nos pede uma pergunta essencial: queremos que o espelho do nosso tempo seja apenas divertido, ou que também seja capaz de refletir a complexidade do que está em jogo? Porque, se o riso nos faz passar adiante, talvez estejamos a passar adiante, igualmente, a responsabilidade de pensar.

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