Michael Jackson ganha biopic estrelado pelo sobrinho Jaafar: ascensão celebrada, escândalos omitidos

Biopic de Michael Jackson dirigido por Antoine Fuqua foca na ascensão do ícone; sobrinho Jaafar estrela, mas escândalos são omitidos.

Michael Jackson ganha biopic estrelado pelo sobrinho Jaafar: ascensão celebrada, escândalos omitidos

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Michael Jackson ganha biopic estrelado pelo sobrinho Jaafar: ascensão celebrada, escândalos omitidos

Por Chiara Lombardi — O mais recente capítulo do imaginário pop global tenta reescrever um ícone: chega às telas o biopic sobre Michael Jackson, dirigido por Antoine Fuqua e lançado pela Universal em 22 de abril. A estreia mundial reservada aos fãs aconteceu em Berlim — escolha simbólica, dado que foi ali, diante do Reichstag em 1988, que o Bad World Tour atingiu um de seus momentos mais emblemáticos, como um espelho do nosso tempo, refletindo a potência cultural de uma superestrela que atravessou fronteiras.

Produzido como um projeto de família e orçado em 155 milhões de dólares, o filme prefere focar na narrativa da conquista — a trajetória do prodígio dos Jackson 5 até a coroação solista — e evita entrar nas controvérsias que marcaram a biografia pública do cantor. Essa opção editorial altera o enquadramento: ao recusar o debate sobre as acusações de pedofilia e outros escândalos, o longa oferece uma reinterpretação do mito, um reframing da realidade que privilegia a criação do ídolo em vez da disputa judicial e moral que o acompanhou.

O roteiro percorre a formação artística de Michael, mostrando a disciplina rígida imposta pelo pai Joe — vivido por Colman Domingo — e a ascensão vertiginosa de um menino que se transforma em estrela diante de milhões. Momentos-chave da narrativa incluem os encontros com os executivos da Motown, a parceria crucial com Quincy Jones (interpretado por Kendrick Sampson) e o papel do advogado John Branca (Miles Teller), figura decisiva na emancipação do controle paterno e na gestão do brand.

O filme não ignora a reinvenção contínua de Michael: as cirurgias no nariz, o incêndio durante as filmagens do comercial da Pepsi em 1984 e a subsequente relação com medicamentos aparecem como episódios que ajudaram a moldar a persona pública. Também são retratadas paixões menos comentadas, como a ligação com os animais que povoaram a casa em Encino e a obsessão por Peter Pan e pela ideia de Neverland — imagens que funcionam como metáforas da infância retida e do isolamento da celebridade.

No centro do projeto está a escolha do intérprete: o sobrinho Jaafar Jackson, nascido em 1996, assume o papel de Michael adulto, enquanto a criança é interpretada por Juliano Krue Vladi. A semelhança física chamou atenção, e, na trilha sonora, a voz de Jaafar se mistura à de Michael em cerca de 30 canções, criando um eco vocálico que pretende ser ponte entre gerações. A presença da família na premiere em Berlim reforça o caráter de reintegração do legado; Jermaine liderou a comitiva que incluiu os filhos Bigi e Prince. Por outro lado, nomes como Janet Jackson e Paris Jackson afastaram-se do projeto, discordando de escolhas de roteiro que, inicialmente, teriam abordado as primeiras acusações de 1993 — uma ausência que também diz muito sobre os limites da narrativa oficial.

Enquanto o filme reposiciona Michael como artista e figura pop reconstituída, a decisão de omitir ou minimizar os escândalos não é neutra: trata-se de uma curadoria do passado que pede leitura crítica. Em termos culturais, este biopic funciona como um espelho polido do zeitgeist: reflete não só a necessidade de recuperar ícones, mas também a disputa sobre quais memórias são preservadas e quais são silenciadas. Para quem observa o fenômeno com curiosidade sofisticada, o longa oferece tanto fascínio estético — figurinos, movimentos de palco, o emblemático luva branca e o moonwalk — quanto uma oportunidade para discutir como a indústria e a família reescrevem uma narrativa pública.

Em suma, o filme de Fuqua escolhe celebrar a ascensão e a música de Michael Jackson, entregando ao público uma versão corrigida e embelezada de um mito complexo. Resta ao espectador decidir se essa reinvenção é uma homenagem legítima ou um recorte seletivo do passado. Como em qualquer grande obra sobre uma figura tão multifacetada, o que está fora da cena pode ser tão revelador quanto o que ocupa o centro do palco.